quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Entrevista com Tzvetan Todorov - alteridade, humanismo, "A conquista da América", entre outro assuntos


A formação como crítico literário foi apenas o começo da longa carreira de um dos pensadores mais completos dos nossos dias. Autor de mais de 20 livros, Tzvetan Todorov é conhecido hoje principalmente por seu trabalho como ensaísta, historiador e filósofo. Da Conquista da América ao espírito do Iluminismo, seus textos se tornaram clássicos.

Relacionando os interesses intelectuais com a experiência pessoal, Todorov percorre confortavelmente todo o campo humanístico. De modo geral, o conjunto da sua obra se debruça sobre o tema da alteridade. Como o próprio autor admite: “Minha motivação era ser um búlgaro vivendo na França.” A condição de imigrante despertou sua sensibilidade para o encontro dos ameríndios com os europeus no século XVI. E, nos tempos atuais, sabe identificar a intolerância do totalitarismo, mesmo disfarçada como uma messiânica cruzada pelos direitos humanos “universais”. Tudo isso sem abandonar a paixão pela ficção e os grandes escritores. Afinal, é a Literatura que nos faz humanos.

Em São Paulo, durante uma palestra no projeto Fronteiras do Pensamento, Todorov falou sobre sua carreira e as questões latentes da nossa contemporaneidade. No lugar das respostas de quem crê cegamente no progresso, nas páginas a seguir, o leitor encontra as inquietações de uma das vozes mais lúcidas e profundas de um mundo em crise. Talvez por não saber identificar, como ele diz, “o que ainda não está em crise”.

Revista de História – O que o levou a trabalhar com uma variedade tão grande de temas?

Tzvetan Todorov – Nem acho que sejam tão variados assim. Meu horizonte de interesses é muito largo, mas em contrapartida não posso estudar tudo. Não sou um especialista sobre Brasil, por exemplo. Embora tenha vindo diversas vezes, nunca tive a chance de me aprofundar verdadeiramente. Na América, acabei por estudar o México, os maias e outros povos da América Central. Mas não conheço bem Brasil, Peru, Argentina. É necessário fazer escolhas.

RH – E que critérios usa para isso?

TT – Bom, não é fácil, mas sempre senti a necessidade de falar do que diz respeito à minha experiência pessoal. Eu não gostaria, no entanto, de escrever minha autobiografia, ou algo do gênero, mas sim fazer o trabalho de historiador com uma motivação pessoal forte. Percebi muito cedo que, no domínio das ciências humanas, era importante, essencial, uma relação entre o objeto de trabalho e o sujeito que o faz. Escolher os temas arbitrariamente, porque o acaso assim quer, põe em xeque a consistência do trabalho, que corre o risco de se tornar apenas uma reprodução daquilo que já existe.

RH – Qual foi o seu primeiro interesse?

TT – O primeiro tema com o qual fui confrontado foi o da alteridade cultural. Obviamente, minha motivação era ser um búlgaro vivendo na França. Isso causava uma dupla exterioridade, uma dupla diferença. A primeira, linguística, já que cresci em contato com a língua búlgara, que faz parte das línguas eslavas. A grande literatura próxima a mim era a Literatura Russa. É verdade que eu me interessava pelas tradições literárias inglesa, francesa e alemã, mas não tinha conhecimento profundo sobre elas. Portanto, eu era um estrangeiro de outra cultura. A segunda era uma diferença política: os regimes na Bulgária e na França não tinham nada a ver. O primeiro era um regime comunista muito severo na época, anos 1950 e 1960, enquanto, na França, era uma democracia liberal, o contrário de uma ditadura. Então, eu tinha a motivação, mas me faltava a matéria, o objeto.

RH – E o encontrou na Conquista da América?

TT – Sim, porque não achava interessante escrever sobre um búlgaro em Paris. Foi nessa época que, por acaso, fui convidado para lecionar um ou dois meses no México a respeito de questões relativas à crítica literária. Estar no México me impressionou bastante, sobretudo o contato com a forte cultura local e nacional. Fiquei encantado por um livro que contava relatos do encontro entre europeus e indígenas, e bastante interessado pela natureza desse encontro. Não pelo fato em si, pois foi extremamente violento. Mas, confesso, fui arrebatado pela história e me senti muito motivado a falar sobre o encontro de culturas, no caso o encontro das culturas europeia e indígena no século XV-XVI no Golfo do México. Eu aprendi espanhol, li muitos relatos dos conquistadores, de monges franciscanos e dominicanos que contavam a respeito do que haviam testemunhado. Também tive acesso aos preciosos relatos dos indígenas, redigidos tanto na língua deles quanto em espanhol. Diante disso, escrevi esse livro [A Conquista da América, 1982] sobre a relação entre populações que até então se ignoravam. Percebi uma série de coisas que mostram ter sido esse contato muito mais complexo do que imaginava.

RH – Quais?

TT - Percebi que Hernan Cortez não era apenas um peão, mas um sujeito dotado de estratégias de como se infiltrar no outro. Surpreendeu-me a atitude de um universalismo moral, encarnado por Bartolomeu de las Casas, religioso que tentou tratar o espírito de ambos os lados da mesma maneira. Outros testemunhos procuravam preservar as diferenças, reforçar não o que havia de universal, mas o que cada cultura tinha de específico. Bernardino de Sahagún e Diego Duran deixaram documentos de grande riqueza e originalidade. Mitos e lendas se misturam ali, e tudo isso produz um material realmente magnífico. Enfim, escrevi esse livro pensando em minha experiência na França, na condição de estrangeiro imigrado, mas também como um ensaio para reconstituir esse encontro. Minha maneira de escrever a história é sempre dessa natureza: o que me interessa é o caráter exemplar de um movimento, o evento. Poder refletir sobre o presente a partir desses episódios do passado; tirar lições do passado para viver melhor.

RH – Como a Literatura ajuda a entender a História?

TT – Quando se pergunta o porquê da Literatura, só resta responder: porque somos seres humanos. A Literatura é uma necessidade humana, vem da própria existência. Somos animais que consomem voluntariamente grande quantidade de relatos e poesias. Todas as populações do globo, de todas as épocas, contam suas histórias e cantam seus poemas. Somos obrigados, por exemplo, a nos recontar histórias para saber sempre o que fizemos, por isso constituímos essa quantidade enorme de impressões. Vivemos o dia a dia, escutamos tudo o que nos acontece, observamos tudo o que está à nossa volta, e o que resta disso é sempre uma história. Eu encontrei um amigo, tomamos café, falávamos disso ou daquilo etc. Essa é a função narrativa, mas ela se encontra condensada, sublimada e magnificada na Literatura. A ficção conta melhor nossas próprias experiências. As palavras me permitem expressar meus sentimentos, mas também enxergam a pluralidade humana. A Literatura é a forma pela qual percebemos que os seres humanos não vivem cada um no seu mundo, mas numa pluralidade infinita. Apesar dos muitos interesses que tenho, ela continua especial.

RH – A opção pela multidisciplinaridade é uma tendência?

TT – Não saberia dizer se é uma tendência. Eu não tenho exatamente uma carreira acadêmica. Não trabalho muito na universidade, mas em um centro de pesquisa [Centro de Pesquisa de Artes e Linguagens, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris] onde cada um decide por si mesmo a orientação temática do seu trabalho. Lá, ninguém me obrigou a me adaptar a um modelo dado; fui guiado por meus interesses. Sei que não é assim sempre, nem em todas as profissões. Na universidade, por exemplo, o professor é obrigado a repetir seu curso porque não tem tempo de preparar um novo. E a divisão das diferentes disciplinas humanísticas, das ciências humanas e sociais, é um tanto artificial, feita ao acaso. Às vezes, um bom professor de uma cadeira de História Econômica se destaca, e a instituição cria a disciplina História Econômica, o que é um pouco arbitrário. Eu não ensinei muito, quase nada, na universidade. Tive a possibilidade de sempre fazer algo diferente dos meus trabalhos anteriores. Mas, é claro, há aqueles que estudam a mesma coisa a vida toda.

RH – Como é a vida acadêmica na França?

TT – Hoje, a vida acadêmica considerada ideal, pelo menos na França, é aquela em que um intelectual escolhe um autor e com ele passa um longo tempo pesquisando, até que, por fim, escreve sua grande tese, confirmando sua especialidade. Esses intelectuais sabem absolutamente tudo sobre seu escritor, o que já escreveram a seu respeito, sua biografia, suas amantes, seus professores, discípulos, tudo sem exceção. Não surpreende que a grande maioria dos professores de Literatura publique um só livro, que é justamente sua tese, além de alguns pequenos artigos em torno do mesmo escritor.

RH –Qual é a sua opinião a respeito?

TT – Penso que essa é uma concepção muito escolástica. Por mais que escrevam a vida toda sobre alguém, nada disso substitui a experiência da leitura direta. Os estudos literários podem nos ajudar a compreender melhor os escritores, podem desempenhar um útil papel auxiliar, até porque há textos que são realmente difíceis. Um bom comentador e suas reflexões auxiliam muito, uma vez que facilitam o acesso a esse livro, mas nunca substituem o escritor e sua própria prosa.

RH – Há uma valorização excessiva da teoria?

TT – Isso está em evidência. Aliás, uma evidência obrigatória para a qual procurei chamar a atenção. A importância da Literatura não é o método ou teoria com a qual a estudamos, mas é a própria Literatura. Porque ela fala de nós mesmos, da condição humana, da nossa sociedade. Ela nos permite compreender melhor o mundo. Quando lemos um livro, está lá o que é mais importante. Quando eu leio a Flor do Mal,de Baudelaire, a importância não é a metáfora nem as figuras retóricas, e sim o motivo pelo qual continuamos a ler esse poema. É a imagem que nos dá do mundo e de nós mesmos. A Literatura nos ajuda a viver por um enriquecimento de nosso mundo interior.

RH – Foi essa reflexão que o motivou a escrever Literatura em perigo [Difel, 2009]?

TT – Escrevi esse livro, um pouco polêmico, para mostrar que esse tipo de estudo não é mau em si mesmo, mas que se torna sufocante se é a única coisa que fazemos. Podemos estudar a imagem em um poema com a intenção de compreendê-lo melhor, e não pelo prazer de fazer um inventário de suas imagens e de suas figuras retóricas.





RH – Se a Literatura é tão reveladora por si só, por que se aventurar por ouras áreas?

TT – A Literatura é suficientemente rica, séria e interessante para ocupar toda a sua vida. Mas, quando eu comecei, fui privado da possibilidade de tratar de outros temas por conta da minha educação na Bulgária e da forte restrição dos temas que podíamos abordar. Senti-me inclinado, depois, a falar um pouco do mundo que nos rodeia. Tornei-me alguém que pretende incluir a Literatura numa mescla mais vasta, que contém a Filosofia, a Política, a Sociologia, em diferentes tipos de discursos da sociedade, como a Pintura, que é também algo que me interessa muito. Mas nunca abandonei a Literatura. Continuo me servindo dos escritores e me referindo a eles.

RH – O senhor identifica a emergência de um messianismo contemporâneo. Qual a importância desse fenômeno?

TT – O mundo todo, da América do Sul ao Vietnã, se manteve politicamente organizado em torno, até o fim, do conflito da Guerra Fria [Período que se estendeu do final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, ao fim da União Soviética, em 1991, marcado pela oposição e pela tensão militar entre os blocos capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e socialista, liderado pela União Soviética]. Quando isso terminou, quando deixamos de estar presos à divisão do mundo em dois polos, entramos em nova fase com diferentes características. Uma delas diz respeito às relações internacionais: é a invenção de uma guerra dita humanitária, justificada por um objetivo nobre e generoso. Em geral, esse objetivo consiste em defender os direitos humanos, ajudar as vítimas de violências etc. Mas isso é feito por meio de intervenções militares, o que acaba por produzir muito mais vítimas do que a causa que se pretendia combater. Esse tipo de guerra, a meu ver, é uma das grandes características do nosso tempo. E hoje não há apenas a guerra civil de um lado e as guerras humanitárias do outro. Há muitas outras guerras. No lugar das guerras de conquista ou mesmo ideológicas, há, por exemplo, a guerra punitiva, como a Al Qaeda atacando os Estados Unidos, e, claro, sua resposta imediata, que ainda permanece em curso. Essa é uma guerra tipicamente justificada por nobres razões, o que eu chamo de messianismo.

RH – Qual é a diferença desse messianismo daqueles produzidos nos séculos XVIII e XIX?

TT – A ideia de messianismo carrega um processo levado a cabo pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa, mas hoje tem um caráter bastante diferente. Não podemos dizer que nossas guerras se assemelham às guerras coloniais, por exemplo: não se trata de submeter ou integrar um país e sua população ao seu território. Mudaram os ideais, mudaram os meios técnicos, que evoluem muito. Hoje, as guerras também influenciam a condução dos negócios. Mesmo a ideia de direitos humanos daquele período é completamente diferente da nossa. Antes, eles diziam respeito à emancipação do indivíduo.
RH – E hoje?

TT – Enquanto princípio universal, os direitos humanos defendem algumas coisas importantes, como a liberdade do indivíduo, a igualdade perante a lei, a dignidade da pessoa humana, enfim, elementos que podem ser reivindicados por todos. No entanto, o que acontece nos nossos dias é a utilização dessa ideologia como justificativa para uma política agressiva. Podem dizer que em tal país acontecem violações dos direitos humanos, e, portanto, temos o direito de intervir e corrigir. Mas está claro que não podemos impor esses direitos. Isso não nos deve impedir evidentemente de socorrer prisões injustas e torturas, mas é necessário lidar com essas categorias com precaução, sem a ousadia de pensar que nós somos proprietários e juízes desses direitos, e cabe a nós então o papel de agir sobre os outros povos “selvagens”. Somos filhos do Iluminismo, mas nossa relação com algumas de suas ideias é muito diferente. Os direitos humanos não só foram construídos numa época específica, como correspondem a um tipo específico de sociedade ocidental. Há outras sociedades que não reservam um lugar especial ao indivíduo, mas à coletividade, ao grupo. Neste sentido, os direitos humanos não são verdadeiramente universais.

RH – É o fim da crença no progresso?

TT – Sim, mas acho que não nos livraremos dela com facilidade. Mesmo se não acreditarmos mais na teoria do progresso, há, na própria ideia de humanidade, a convicção de que sempre devemos melhorar nossa condição. Houve o momento em que a crença em movimentos políticos, como o comunismo, era muito forte. Certamente uma tentativa de melhorar as condições da massa pobre sofrida. Mais tarde se deram conta de que o remédio era pior que a doença, o resultado não era melhor que o motivo com o qual se revoltaram. Mas está sempre ligado à ideia do progresso, de melhorar o mundo.

RH – E qual seria o “remédio” de hoje?

TT – Em nossos dias, essa crença do progresso está muito ligada à Tecnologia. Ora, é um produto novo, um computador, um telefone, mais tarde também a Biologia, pois queremos filhos lindos, inteligentes, geniais se possível. É a obrigação de procurar o melhor, mesmo se na Filosofia e na teoria política não compartilhamos mais do mesmo otimismo dos iluministas, que acreditavam que o futuro sempre seria algo melhor que o presente. A ciência traz melhorias para a nossa vida. Entretanto, há o risco também. O átomo, por exemplo, pode significar a energia que acende a luz das casas, mas também riscos inimagináveis e grandes catástrofes como Chernobil [Acidente na Usina Nuclear Vladimir Lenin, localizada na cidade de Chernobyl, na Ucrânica, parte da União Soviética, em 1986. A explosão de um dos reatores provocou uma das maiores tragédias da história da energia nuclear, contaminando grandes áreas de toda a Europa Central].

A clonagem talvez seja necessária para produzir órgãos humanos para aqueles que sofrem de certa doença, mas também podemos imaginar a produção de uma subespécie humana, robôs ou até zumbis. Tudo isso é incerto. O sociólogo alemão Ulrich Beck desenvolveu a ideia de que, durante o século XIX, a ciência era uma fonte de esperança. Depois da segunda metade do século XX, se tornou fonte de desespero, quer dizer, de risco e inquietude. Ficou muito difícil ser otimista.

RH – O Humanismo está em crise?

TT – Não tenho certeza. O Humanismo é uma concepção ideal e moral que não sei ao certo se está em crise. Ao menos, não sozinha. Tenho a impressão de que nós achamos que o Humanismo não é muito forte, que é frágil. Ele certamente recebe muitas agressões. Mas talvez não esteja em crise se nós não encontrarmos nada para colocar no seu lugar. Talvez por não sabermos, hoje em dia, o que ainda não está em crise. 
 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Prêmios Literários da Biblioteca Nacional


Estão abertas as inscrições para o Prêmio Literário Fundação Biblioteca Nacional 2013.

Até o dia 5 de novembro, escritores, tradutores e designers gráficos podem concorrer com obras de acordo com a sua categoria, divididas em nove opções: Poesia, Romance, Conto, Ensaio Literário, Ensaio Social, Tradução, Projeto Gráfico e Literatura Infantil e Literatura Juvenil.

Para concorrer, o livro deve ser inédito (1ª edição), publicado em português e no Brasil entre 1º de setembro de 2012 e 31 de agosto de 2013. É obrigatório estar em dia com a Lei do Depósito Legal (Lei nº 10.994, de 14 de dezembro de 2004) e possuir número de ISBN (International Standard Book Number). A inscrição é gratuita.

Para realizar as inscrições, os interessados devem preencher o formulário de inscrição que está disponível no portal da BN; encaminhar 4 (quatro) cópias da obra para avaliação da Comissão Julgadora, acompanhados do formulário de inscrição para o endereço: Prêmio Literário 2013 - Fundação Biblioteca Nacional - Rua da Imprensa, 16 – 15º andar – Centro. CEP: 20030-120 – Rio de Janeiro – RJ.

Serão aceitas inscrições postadas até o dia 4 de novembro de 2013, valendo como comprovante de envio a data de postagem que consta no carimbo da agência expedidora.

O prêmio, realizado desde 1997 pela Fundação Biblioteca Nacional, é uma forma de reconhecer e apoiar não apenas os melhores livros brasileiros, mas sim aqueles que motivam e engrandecem a literatura nacional. Além das placas comemorativas, cada categoria premia a obra vencedora em RS 12.500,00 (doze mil e quinhentos reais).

Em caso de dúvidas, as mesmas deverão ser encaminhadas ao endereço de e-mail: premioliterario2013@bn.br, ou através do telefone (21) 3257-0756.

Descrição das Categorias

Romance: Narrativa ficcional longa.
Conto: Narrativa ficcional curta.
Poesia: Expressão textual lírica que utiliza efeitos linguísticos sonoros, rítmicos e harmônicos, escritos em prosa ou verso. Atividade criativa da linguagem, com base em recursos sintáticos, vocabulares e gramaticais.
Ensaio literário: Textos que apresentam ideias e reflexões a respeito de teoria, interpretação e crítica literária.
Ensaio social: Textos que apresentam ideias e reflexões a respeito de um tema, como História, Filosofia, Ciências Sociais, Política, Sociologia, Antropologia e obras de divulgação científica.
Tradução: Obras literárias (romance, conto, poesia, crônicas) traduzidas de outros idiomas para o português do Brasil.
Projeto gráfico: Conjunto da criação e disposição de elementos gráficos e textuais no livro – capa, tipologia, arte, fotos, imagens, cores, formas, texto, diagramação, papel e impressão.
Literatura Infantil: Obras de conteúdo ficcional, podendo ou não conter elementos de não-ficção, que abordam temas e assuntos destinados ao público infantil.

Literatura Juvenil: Obras de conteúdo ficcional, podendo ou não conter elementos de não-ficção, que abordam temas e assuntos destinados ao público juvenil.


Fonte: Fundação Biblioteca Nacional.

A tríade da literatura brasileira: Grande sertão: veredas, Machado de Assis e Dalton Trevisan.

Ao longo de três semanas, com o objetivo de fazer um levantamento sobre o que de melhor a literatura brasileira produziu e tem produzido ao longo da história, nos campos da poesia e da ficção, o Estado de Minas entrou em contato com 50 intelectuais de vários estados e instituições ligadas à literatura, como universidades, revistas especializadas, cadernos de cultura de grandes jornais, centros de pesquisa e projetos literários e de incentivo à leitura. A eles foi pedido que indicassem, de acordo com suas preferências: a) os cinco melhores escritores vivos da literatura brasileira; b) os cinco melhores escritores da literatura brasileira de todos os tempos; c) os cinco melhores livros da literatura brasileira, ficção e poesia, de todos os tempos. 

Como critério, optou-se por evitar o convite a escritores, candidatos naturais, para participar da pesquisa. Em alguns casos, como no campo das letras muitas vezes os ofícios se sobrepõem, alguns ensaístas, professores e jornalistas que participaram da escolha são também autores de obras de ficção e poesia, mas sempre com nítida primazia da atividade crítica ou de pesquisa sobre a da literatura de invenção. 

• Enquete: quem é o maior escritor brasileiro de todos os tempos?

O resultado, como todas as listas da mesma natureza, por um lado consagra o cânone, por outro revela interessantes surpresas, que mostram a dinâmica que perpassa o setor cultural. Mesmo as mais consagradas escolhas carregam a marca do seu tempo. Além disso, o resultado, como se vai conferir nesta edição, acaba por constituir um repertório variado, que vale por um projeto de leitura para quem busca conhecer a literatura brasileira. 

• Qual é o melhor livro da literatura nacional? Dê a sua opinião! 

Ao analisar os resultados da enquete, Letícia Malard, professora emérita de literatura da UFMG, aponta para três tendências. A primeira seria a de dar prioridade à prosa, uma vez que, dentre os cinco melhores escritores vivos, consta um poeta apenas, o maranhense Ferreira Gullar. A segunda tendência apontada pela especialista foi a de os jurados prestigiarem, nos primeiros cinco lugares, autores vivos muito idosos: o mais novo, o amazonense Milton Hatoum, tem 60 anos, os outros estão com mais de 80. E a terceira observação apontada por ela diz respeito ao fato de parte dos jurados não incluírem escritores vivos nem livros deles entre os melhores de todos os tempos, apesar da grande vitalidade e de nomes de primeira categoria na literatura brasileira atual. 

• Ajude a escolher o maior escritor vivo do Brasil: vote! 

Para o professor de literatura, romancista e crítico literário Silviano Santiago, que não participou da pesquisa mas teve seu nome citado entre os melhores da literatura brasileira contemporânea, não há como questionar esse tipo de lista, como não se questiona, no regime democrático, a vitória de político por sufrágio universal. “Poderia dizer, no entanto, que talvez tenha faltado paixão amorosa para colocar entre os melhores da literatura brasileira de todos os tempos nomes com o Mário e Oswald de Andrade, ao lado de José de Alencar. Talvez tivesse sido melhor substituir um segundo Graciliano, de Vidas secas, pelo comovente poema dramático 'Morte e vida severina', de João Cabral de Melo Neto”, diz. 

Ainda de acordo com Santiago, talvez, se lembrado “o fervor à sustança clássica no pós-modernismo”, Autran Dourado tivesse sido eleito, e é provável que também tenha faltado “a grita da arraia-miúda nacional” para conduzir Lima Barreto ou Cruz e Sousa ao pódio. “Talvez tenha pesado preconceito de gênero, para não se levar em conta um João do Rio ou Hilda Hilst, entre outros. A unaminidade pensa a literatura de modo inconsciente, simpático e feliz”, avalia.

Bruxo e vampiro
Os escolhidos pela maioria de votos nas três categorias – melhor escritor brasileiro, melhor livro de todos os tempos e melhor escritor brasileiro vivo – consagram respectivamente Machado de Assis; 'Grande sertão: veredas', de Guimarães Rosa; e Dalton Trevisan. É um conjunto aparentemente heterogêneo, que vai de um escritor elegantemente clássico a um autor que se caracteriza pela secura extrema, passando pela obra mítica e barroca do escritor mineiro. De um século ao outro, não é exagero dizer que a centralidade da linguagem em Machado prenuncia o modernismo de Rosa.

Há um fio que foi puxado pelo próprio Dalton ao receber, no ano passado, o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras. O Vampiro de Curitiba escreveu em carta à direção da casa, referindo-se a Machado de Assis: “Ele nos incitou, o grande bruxo, no prazer secreto da leitura”. Rosa, de certa forma, foi um testemunho silencioso nessa conversa entre o vampiro e o bruxo. Conhecedor das manhas do diabo, ele sabia que o sentido não estava no passado nem se esgotaria no futuro. Na literatura, como na vida, o que há é travessia.

Melhores livros da literatura brasileira
l 'Grande sertão: veredas'
Guimarães Rosa, 1956
l 'Memórias póstumas de Brás Cubas'
Machado de Assis, 1880
l 'Dom Casmurro'
Machado de Assis, 1899
l 'Vidas secas'
Graciliano Ramos, 1938
l 'São Bernardo'
Graciliano Ramos, 1934

Melhores escritores brasileiros de todos os tempos

l Machado de Assis (1839-1908)
l Guimarães Rosa (1908-1967)
l Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
l Graciliano Ramos (1892-1953)
l Clarice Lispector (1920-1977)

Melhores escritores brasileiros vivos

l Dalton Trevisan (1925)
l Ferreira Gullar (1930)
l Lygia Fagundes Telles (1923)
l Milton Hatoum (1952)
l Rubem Fonseca (1925)

Fonte: Enquete

Dica de leitura: Guimarães Rosa y su Declaración de Bogotá

“Páramo” es un relato de João Guimarães Rosa, cuyo escenario es la Bogotá de los años 40, que narra la experiencia de soroche y melancolía de un diplomático brasileño. El autor vivió entre los años 1942 y 1944 en la ciudad, regresó como representante de su país a la IX Conferencia Panamericana y presenció la revuelta de los días de abril de 1948. El presente artículo busca vestigios de ese contacto, postula una lectura del texto como remontaje de la historia y estudia algunos problemas relacionados con los protocolos de lectura generalmente asociados a la escritura rosiana. [Tradução do prof. Sílvio Holanda: “Páramo” é um relato de João Guimarães Rosa, cujo cenário é a Bogotá dos anos 1940, que narra a experiência de “soroche” [doença de altitude] e melancolia de um diplomata brasileiro. O autor viveu entre os anos de 1942 e 1944 na cidade, retornou como representante de seu país para a IX Conferência Pan-Americana e presenciou a revolta do dia de abril de 1948. O presente artigo busca vestígios desse contato, postula uma leitura do texto como remontagem da história e estuda alguns problemas relacionados com osprotocolos de leitura geralmente associados à escritura rosiana.]


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

"O escritor não transcreve a vida, inventa a vida"


Milton Hatoum, o escritor brasileiro de origem libanesa, veio a Lisboa conversar com o poeta sírio Adonis na Gulbenkian. Falaram de política, mas sobretudo como a literatura e a poesia podem fazer a ponte entre Ocidente e Oriente

Aos 61 anos, o escritor brasileiro Milton Hatoum não tem pressa. Na era em que os livros parecem ser fabricados em série, publicou apenas seis em quase 25 anos de carreira - e escreve-os à mão.

Vencedor dos prémios Jabuti e Portugal Telecom de literatura defende que o escritor tem de ter coragem para escrever e mais ainda para ficar em silêncio.

Ele, que acredita nos bons leitores, diz que é assustador ver um presidente culto como Barack Obama em visita ao Brasil citar Paulo Coelho e não Machado de Assis ou Clarice Lispector.

Sobre o Brasil e o futuro do país do futuro? Votou em Dilma Rousseff - "as outras opções eram assustadoras" - e acha que ela vai ganhar de novo. As manifestações nas ruas da cidades brasileiras eram contra tudo: "O que a imensa maioria queria era uma política pública mais eficaz, porque há dinheiro para isso."

Costuma dizer que "um dos enigmas da literatura é a passagem da experiência para a linguagem" - justamente o tema da conferência que veio fazer na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. É possível desvendar este enigma?

O enigma nunca é decifrado. Na literatura, o estético, como disse o Borges [o escritor argentino Jorge Luis Borges], é o lugar do enigma. O que é fascinante na literatura é justamente esta possibilidade de inventar aquilo que poderia ter existido ou aquilo que pode existir. O enigma que vagalumenunca é decifrado irradia possibilidades de leitura e de interpretação. Esta é a verdade da literatura, é a verdade das relações humanas, não é uma verdade científica nem das respostas definitivas. Ao contrário, ela coloca questões o tempo todo. No meu romance Dois Irmãos (lançado há 12 anos com mais de 140 mil cópias no Brasil e que agora vai ser adaptado para a televisão), o grande enigma é saber quem é o pai do narrador.

O grande desafio do escritor é transformar a sua experiência em linguagem. Todo mundo tem uma experiência, que pode ser mais rala, mais livresca, que pode ser uma experiência de leitura, de vida aventureira ou não. A questão da literatura é como isto se transforma em linguagem. A imaginação, que é o que para mim dá força à literatura, tem que traduzir esta experiência. O valor da arte está ligado à força da imaginação.

Escreve todos os seus livros à mão. Não usa o computador. Porquê?

Tem a ver com os gestos, com algo corporal, com o hábito do arquitecto de fazer desenhos. Eu fui arquitecto [é formado em Arquitectura pela Universidade de São Paulo] muito antes dos programas de computador. Na minha época, para entrar numa faculdade de Arquitectura, você tinha que dominar o desenho. E eu me acostumei a escrever à mão - com aquilo que a gente ligava o projecto ao desígnio, ao desejo. O Roland Barthes tem um texto bonito sobre isso, sobre os manuscritos dos escritores franceses, compara o manuscrito do Balzac a uma espécie de fogo-de-artifício onde há muitas correcções, uma coisa meio arbórea. Eu me sinto mais livre escrevendo à mão. Acho que meu pensamento flui. As ideias também fluem mais com a caneta do que na tela. Eu posso passar horas escrevendo e não cansa porque também não escrevo copiosamente. Em 25 anos - o meu primeiro romance, Relato de Um Certo Oriente, vai fazer 25 anos em Abril do ano que vem - eu publiquei seis livros.

Afirmou em algumas entrevistas que um escritor tem de ter coragem de escrever e também coragem de silenciar para não escrever asneiras. A sua coragem para silenciar é maior do que a de escrever?

Não vejo nenhuma importância em publicar coisas supérfluas. O leitor é esperto. Há bons leitores. O leitor percebe quando a coisa não é trabalhada, quando você não diz uma verdade íntima. Isso é muito claro. Se eu fosse mais rápido, teria publicado mais coisas de que gosto. E não prejudiquei ninguém com isso.

Agora é impressionante a quantidade de livros. É curioso, quando eu morava na França, ouvi uma conversa sobre literatura entre o Maurice Nadeau e o Roland Barthes (que depois foi publicada - Sur la Littérature). O Nadeau perguntou ao Barthes sobre a crise da literatura. "Não há crise da literatura" - disse o Barthes. "Há excesso de livros." Isso em 1980. Então hoje a literatura virou outra coisa.

O Presidente Obama, um homem culto, que se formou em Harvard, uma das melhores universidades americanas, quando visitou o Brasil não falou do Machado de Assis, da Clarice Lispector, do Guimarães Rosa, do Graciliano Ramos. Ele citou Paulo Coelho. Então é um desprestígio enorme para a literatura brasileira. Uma coisa assustadora, a assessoria do Presidente culto - vamos dizer assim -, uma assessoria que não conseguiu transmitir o básico. Ainda bem que ele não falou Isabel Allende [risos]. Se fosse o Bush... teria dito qualquer asneira. Na literatura a quantidade não interessa. Há dois grandes exemplos de escritores que publicaram pouco e não precisam publicar mais. O mexicano Juan Ruffo, que só escreveu um romance, e o brasileiro Raduan Nassar, que escreveu o Lavoura Arcaica, O Copo de Cólera e um livrinho de contos. Isso é coragem.

Está a trabalhar num novo romance?

Estou escrevendo um romance há quatro anos, que são dois volumes. Na verdade, eu não sei se vou juntar num só. É um romance que tem muito a ver com a minha experiência. O leitor comum pensa que você transcreve a vida. Não é verdade. Você inventa a vida ou transcende a vida. Este é um romance que acompanha de perto a minha trajectória: desde que eu saí de Manaus, fui sozinho para Brasília, em Dezembro de 1967. Tem algo de autobiográfico, mas a partir do momento em que a vida é incorporada ao texto, a vida se torna texto, se torna literatura.

O romance é muito inventado, claro, mas tem uma parte em Brasília onde eu presenciei o biénio de horror [época da ditadura militar]. Eu tinha 15, 16 anos. Morei dois anos em Brasília. Entrei de cara no movimento estudantil. Não aguentei a barra em Brasília e fui para São Paulo. Entrei na Faculdade de Arquitectura, fiz uma revista de poesia com amigos.

E quando é que decidiu largar a arquitectura e ser escritor?

Escrevi alguns contos nos anos 1970. Rasguei todos. Uma editora do Rio leu e gostou, mas eu era muito inseguro (ainda sou). Achei que foi generosa de mais e não acreditei. Desconfio de todo o tipo de elogio rasgado. Eu queria muito ser poeta. Publiquei um livro de poesias naquela época, 1978, com fotos do Amazonas de amigos meus. Chamava-se Amazonas, um Rio entre Ruínas (está esgotado).

Mas eu só comecei a escrever o primeiro romance aqui na Europa. Foi na Espanha.

Este novo romance tem título?

Tem um título provisório que é O Lugar mais Sombrio. Está ficando muito grande... não sei quando vou acabar.

Veio a Lisboa para o programa Futuro Próximo da Gulbenkian em que conversa com o poeta sírio Adonis. O que é que Adonis tem que o Milton não tem?

O que ele tem e eu invejo é o domínio pleno e íntegro da língua árabe. Eu sou filho de libanês. Meu pai era libanês, morreu, e minha mãe era brasileira - filha de libaneses -, mas era uma brasileira amazonense típica. E não falava árabe comigo. A língua materna era a língua portuguesa. É incrível que estes 12 milhões de brasileiros de origem árabe não falem árabe. Isso também aconteceu com os italianos, os filhos não falam italiano. O Brasil é peculiar. Os imigrantes queriam que os filhos se integrassem. Isso facilitou a mestiçagem. Na minha família ninguém se casou com filho de árabe. Ninguém. É fantástico isso.

Agora o Adonis é um dos grandes poetas vivos. Ele foi e é uma figura central na poesia árabe contemporânea. Saiu de Damasco, foi para o Líbano ainda jovem e se exilou. Renovou a poesia árabe e trabalhou com versos livres. Mostrou ao Oriente e ao Ocidente a ponte que já existia e que estava oculta entre a poesia destes dois mundos. O Adonis recuperou muita coisa da poesia árabe que estava escondida: a poesia pré-islâmica, ele fez uma bela antologia, a poesia sufi.

Tem um livro que relaciona o surrealismo, Rimbaud, e a poesia sufi. E tem tudo a ver. Há ligações profundas, como se fossem correntes subterrâneas da imaginação livre, solta. O Adonis procurou estas confluências da poesia árabe e da poesia do Ocidente. A questão do duplo, dos sonhos, desta imaginação solta, do êxtase do Rimbaud, o êxtase dos poetas sufi.

O Adonis é uma inspiração?


É. Ele, o Edward Said. Pessoas que não separam uma cultura da outra. Uma cultura morre quando você a separa ou se você dá um status para ela, um significado de superioridade falsa. Não há culturas superiores.

Se pudesse ter uma conversa imaginária com o seu pai, como explicaria o que está a acontecer no Médio Oriente?

Acho que ele é que me explicaria. Ele viveu o período colonial francês em Beirute. Era funcionário do Ministério da Justiça. Ele diria que o mundo árabe é um mundo desagregado. Era o que ele dizia para mim, que a colonização deixou este mundo desagregado. E com o agravante de que o mundo árabe não alcançou a modernidade talvez pelas próprias condições do colonialismo, como a África não alcançou, menos ainda. O sentido do clã, das religiões, o sectarismo, isso tudo é uma loucura.

E como vê a Primavera árabe?

É um processo que está começando. Seria muito difícil dizer "a Primavera Árabe aconteceu naquele mês de Julho". É um processo longo. Vai demorar muito porque os anos, as décadas de autoritarismo, de ditaduras praticamente em todo o mundo árabe, este tempo longo criou também mentalidades arcaicas, conservadoras, com o agravante de que o país mais conservador, mais autoritário do mundo árabe, a Arábia Saudita, é o maior aliado político e militar dos Estados Unidos. Por que não se diz isso? Por que o Obama - ou o Bush - não tenta democratizar a Arábia Saudita? Esta é uma pergunta interessante. Por que levar a democracia só ao Iraque? A que custo? Todas estas intervenções foram criminosas.

Eu não tenho esperança. Também não sei qual é a importância de ter esperança. Também não sou religioso. Acho que as pessoas devem lutar por causas mais justas. Isso não me dá esperança, mas me dá uma vontade de viver. Agora é difícil ter esperança quando você vê o que está a acontecer na Síria, os bilhões que são gastos em armas.

O Saramago dizia que a democracia acabou. De certo modo ele tem razão. Tudo está contaminado pelo poder económico.

No ano passado, disse: "Já fomos o país do futuro, mas parece que o futuro deu um salto para trás e alcançou o Brasil." Como é que vê o que está a acontecer hoje no Brasil? Como vê as manifestações que começaram em Junho?

As manifestações começaram com uma reivindicação muito concreta, que foi o Movimento Passe Livre, que existe há dez anos. Por causa de 20 centavos. Cresceu, se alastrou e tomou proporções gigantescas, porque há uma insatisfação geral.

A gente tem que lembrar que o Brasil viveu quase 25 anos em estado de excepção, sem eleições directas, sob a ditadura. A prática democrática foi banida durante um quarto de século. Acabaram com a educação pública, foi terrível. Quando a democracia ressurgiu em 1985, esta prática democrática era muito pequena.

Os partidos que foram criados, com algumas excepções, são partidos fisiológicos, partidos que fazem negociações. Isto aconteceu com o Fernando Henrique, duas vezes, quando ele teve que negociar com o PFL na época. O próprio PMDB. A gente esquece que o Renan Calheiros foi ministro do Fernando Henrique, ministro da Justiça. Esquece isso. Sarney e Collor. Sarney e Lula.

Então a nossa democracia é muito frágil. Eu citei numa crónica, a última que escrevi para o Estadão, "Escárnio e covardia, miséria de muitos", o Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Hollanda, que diz isso com muita propriedade. O Brasil nunca respeitou as suas instituições e a política do Brasil é sempre feita em círculos fechados, sem consulta popular, sem diálogo com a população, sempre ao benefício do privado, das coisas particulares em relação ao público. Isso é uma tradição da vida política brasileira. Basicamente não mudou, com um agravante que é o novo clientelismo do qual o sociólogo Bolívar Lamounier fala: o clientelismo destes grandes clientes dos serviços públicos com agências de publicidade, construtoras - e eu cito -, empresas de colecta de lixo e transportes públicos.

Não há transparência nestas licitações, nem lisura nestes contratos públicos nos três níveis, porque o problema não é só no Governo federal, o Brasil tem 5570 municípios. Quando fala da educação pública, tem que ver o que estes prefeitos pensam. É um horror, a maioria é ignorante. Vai para o interior deste Brasil, mesmo São Paulo, e é uma estupidez.

E estes jovens que estão nas ruas a destruir caixas electrónicos (ATM)? Não tem nada a ver com o que aconteceu em Junho?

Este é um grupo anarquista mais radical que quebra banco. Sou contra, porque afasta a população. As pessoas têm medo e é um pretexto para a polícia, que já é violenta, intervir com mais violência. Mas acho que são grupos isolados. O que a população estava reivindicando era uma política... não era contra a Dilma. Era contra tudo. Era contra o sistema todo.

É claro que houve grupos de direita, extrema-direita, tinha tudo. Mas vamos dizer que a imensa maioria era de gente que queria uma política pública mais eficaz porque há dinheiro para isso.

Mas houve uma desmobilização?

Houve, porque não há lideranças e quando não há lideranças é difícil mobilizar. O Facebook não é um manual ideológico. O Facebook é um telefone contemporâneo, só que é um telefone que pega milhares, milhões. O Facebook não politiza. A tecnologia não cria consciência política. Quem cria consciência política é a escola, a boa escola.

Em relação ao Médio Oriente, já disse que não tem esperança. E em relação ao Brasil?

Basta estar vivo para não ter esperança. Mas dito isso eu adoro a vida. Mas não tenho esperança nesta política que é feita. A juventude é a única força transformadora, mas é preciso criar lideranças independentes. O PT errou no Brasil, errou muito. Não fez autocrítica. Eu votei nela, na Dilma. Ela vai ganhar novamente.

Arrepende-se?

Não. Não porque as opções eram piores, eram assustadoras.

Há muitas críticas em relação aos subsídios, Bolsa Escola, Bolsa Família. Os mais críticos argumentam que estão a criar dependência nas pessoas e não emprego. Concorda?

Não. Se você sofrer na pele o que estes bolsistas sofrem. São pessoas muito miseráveis. É claro que o emprego é importantíssimo. Mas esta é uma medida emergencial. Como é que você vai montar uma fábrica nos sertões ou nos confins do Brasil? Isso não é assim que se faz, emprego não se cria de uma hora para outra. Para as pessoas não passarem fome, para os filhos poderem ir à escola, acho importante.

O que gostaria que o leitor português soubesse que ainda não sabe sobre si?

É só lerem os meu livros.

É a experiência transformada em linguagem?

Já não sou eu o eu que escreve, mas alguma coisa de mim está neles.
Fonte: Revista Cultura

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Dica de leitura - Viver é muito perigoso: uma leitura do olhar em Grande sertão: veredas

A recorrência enfática do uso de termos semanticamente relacionados ao olhar, aos olhos ou ao ato de ver apresenta-se de forma bastante significativa nos textos de João Guimarães Rosa, o que sugere haver uma significação própria e relevante do uso desse signo para a obra do autor. Este trabalho visa analisar a relevância do uso desse signo tanto sob uma perspectiva de seus significados quanto da estruturação das obras rosianas. A partir das leituras desenvolveu-se a acepção de que o ato de ver represente uma forma pela qual os personagens de Rosa descobrem o mundo e a si mesmos, levando-os a uma longa travessia epifânica de encontros e desencontros com o mundo. O sentido da visão adquire um estatuto de descoberta, revelação, epifania, esclarecimento. Assim, seus personagens serão guiados a ver de um modo renovado, o que os fará deparar-se com alegrias e angústias, felicidade e tristezas, porque saber é também doloroso. Visa-se, assim, compreender, na interpretação do romance Grande sertão: veredas, uma travessia constituída a partir do ato de ver, em que a trajetória de aprendizagem de Riobaldo é um elemento essencial da assimilação desse modo de ver não limitante. 

MONTOVANI, Juliana Estanislau de Ataíde. Viver é muito perigoso: uma leitura do olhar em Grande sertão: veredas. Brasília, 2013. 199 p. Dissertação de mestrado em Letras, Universidade de Brasília.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Curso da USP para Escrita Científica


Este site foi especialmente desenvolvido para a disseminação de conhecimentos e treinamento na área de Escrita Científica. O site traz uma série de materiais, incluindo apostilas e vídeo-aulas, baseados em quase uma década de experiência do Prof. Dr. Valtencir Zucolotto, na criação e aplicação de cursos e minicursos em Escrita Científica. Os cursos abordam tópicos em Estrutura e Linguagem, de forma modular, e foram desenvolvidos especialmente para qualificar cientistas, pesquisadores e alunos de pós-graduação para o processamento e produção de Artigos Científicos de Alto Impacto.
Para saber mais, visite o site.