segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Décio Pignatari: lembrança


Um dos eventos que mais me marcou nos longos anos de estudo na UnB foi uma palestra de Décio Pignatari, a 12 de dezembro de 2003, sexta-feira. O impressionante não foi a lábia, a beleza ou qualquer outra qualidade intrínseca ao palestrante, mas sua platéia: não havia ninguém. Sabia ainda pouco sobre o poeta, tradutor, ensaísta e professor. Havia lido apenas algumas poesias concretas suas, dos anos 60. Tinha, no entanto, ciência de sua relevância para a Comunicação e seu papel primordial no desenvolvimento da poesia concreta.

Voltando ao fatídico dia, cheguei no horário estipulado, talvez um pouco antes. Carregava alguns volumes comigo, na esperança de que lá chegando, conseguisse ao menos algum autógrafo. Quando entrei no auditório, ele estava ainda vazio. O tempo passou e a situação não melhorou muito. Com Décio Pignatari já presente, fizeram sala para ver se chegava mais alguém: nada. Resolveram então formar a mesa e, de uma só vez, todos os presentes se levantaram e se dirigiram à mesa. No auditório, apenas um repórter e eu. Em uma das principais universidades do país, na seu salão mais nobre – o de Atos da Reitoria -  uma das principais figuras da intelectualidade brasileira achava-se sem interlocutores. Não por nada, um dos assuntos que mais o preocupava era o vale-tudo do ensino superior nas Humanidades. Fosse ele jogador de futebol ou ninfeta de novela, a situação seria decerto outra.

Na falta de sentido de uma banca sem público, em breve achei-me ao lado de Pignatari, a quem mostrei os volumes que portava. Conversamos brevemente sobre cada um dos livros, ele empolgadíssimo com o fato de eu estar com a coleção completa da revista “Invenção”, a segunda publicação em série dos poetas concretos – o grupo Noigandres – editada nos anos 1960. Disse-me que nem ele tinha mais esses volumes. Eu, brincando (sério), disse que continuaria sem os ter: aqueles eram meus. Ao ver o “Errâncias” entre os livros, dedicou-me esse volume publicado em 2000 dizendo-me que se tratava de seu livro predileto: P/ Oto este passeio icônico-reflexivo pela memória (minha e de outros e outras coisas) c/ o abraço do DPignatari Brasília, 12-12-03.

Essa palestra tornada bate-papo seria a cereja do bolo de uma série de apresentações e colóquios do Ciclo Encontros Antológicos,  do projeto “Florividilégio”, iniciados em finais de novembro com a apresentação “Poesia é Risco” de Augusto de Campos, no Teatro da Caixa – com grande sucesso de público. Houve também uma palestra – atropelada, por falhas na organização – com o bibliófilo José Mindlin e o crítico João Alexandre Barbosa, ambos já falecidos. De qualquer forma, o que me impressionou foi a falta de interesse na fala de um mestre: mais de 20 mil alunos, centenas de professores de Humanas, dezenas do Instituo de Letras, não houve quem se interessasse pela sua palestra.

Agora é tarde: faleceu a 2 de dezembro de 2012, no domingo, Décio Pignatari. Sua vasta produção, no entanto, fica. Mais de duas dúzias de livros, dezenas de textos entre artigos acadêmicos e textos para revistas e jornais. A obra poética foi reunida no volume “Poesia Pois é Poesia”, e conta com poemas consagrados como “Beba Coca-Cola”, de 1957, e “Organismo”, de 1960. Deixou para a Comunicação as obras “Informação. Linguagem. Comunicação”, “Contracomunicação”  e “Semiótica & literatura”, entre outras, além da tradução de Marshall McLuhan. Alguns desses volumes têm sido reeditados a décadas, em edições sucessivas. Escreveu, diagramou, compilou, traduziu, registrou, transgrediu. Resta lê-lo.


Oto Reifschneider é bacharel em História, Mestre em Sociologia e Doutor em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília. Membro da Associação Brasileira de Bibliófilos. E-mail: oto_dias@yahoo.com


Fonte: MUSA RARA

Hawaii International Conference on Arts And Humanities 2013 | Honolulu (Estados Unidos, USA)



The 11th Annual Hawaii International Conference on Arts and Humanities will be held from January 11th (Friday) to January 14th (Monday), 2013 at the Hilton Hawaiian Village Waikiki Beach Resort in Honolulu, Hawaii. Honolulu is located on the island of Oahu. Oahu is often nicknamed "the gathering place". The 2013 Hawaii International Conference on Arts and Humanities will once again be the gathering place for academicians and professionals from arts and humanities related fields from all over the world.

The main goal of the 2013 Hawaii International Conference on Arts and Humanities is to provide an opportunity for academicians and professionals from various arts and humanities related fields from all over the world to come together and learn from each other. An additional goal of the conference is to provide a place for academicians and professionals with cross-disciplinary interests related to arts and humanities to meet and interact with members inside and outside their own particular disciplines.

We will have very limited space available this year for performing artists (live dance, theater, and music, etc) as we've had in previous years.  Please email us directly at humanities@hichumanities.org if you are interested in presenting a live performance.

The 2012 conference was a great success!  It was attended by more than 550 participants representing more than 30 countries!


Acesse o site e conheça o evento!

domingo, 16 de dezembro de 2012

Chamada para publicação: Revista Non Plus | USP


Temos o prazer de convidá-lo a submeter trabalhos para o segundo número da Revista *Non** Plus* (*ISSN: 2316-3976*), publicação eletrônica semestral dos alunos do programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos, Literários e Tradutológicos em Francês, do Departamento de Letras Modernas, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).

Serão aceitos para submissão artigos de caráter teórico que contemplem os segmentos de Didática, Estudos Literários, Crítica Literária, Língua Francesa e Tradução, relativos à língua e cultura francesa ou francófona.   
No intuito de fomentar o diálogo entre as várias etapas da vida acadêmica, aceitaremos a submissão de artigos de alunos de graduação, de pós-graduação, de professores universitários e demais pesquisadores.

Os artigos deverão ser submetidos pelo site *até*: *10 de Janeiro de 2013 *pelo endereço: http://www.revistas.usp.br/nonplus. (É necessário cadastrar-se como autor).

O número tem publicação prevista para primeiro semestre de 2013.

Lembramos ainda que os autores devem observar as *normas de publicação*disponíveis no endereço:

Contamos com a ajuda de todos na divulgação dessa chamada.

Aproveitamos para convidá-lo a apreciar o número 1 da *Non** Plus *no endereço: http://www.revistas.usp.br/nonplus/issue/current e *curtir* nossa página no *Facebook®*: https://www.facebook.com/nonplus.revista

Record apresenta especial de literatura baseado em obra de Jorge Amado

Galera, o negócio é o seguinte:

não é querer puxar sardinha pra Record, mas acho que vale a pena nós, de Letras, que curtimos a boa e infante Literatura Brasileira, darmos uma conferida no especial de fim de ano preparado pela emissora, que vai ao ar nessa próxima terça, 18/12.

Justo por isso é que aqui vai o vídeo de chamada de O Milagre dos Pássaros, título de Jorge Amado cuja adaptação para a tv conta as atuações de Gisele Itié, Fernando Pavão e José Dumont.


Estejamos duplamente atentos, como leitores de "linguagens" que compreendem o que não há de unívoco quanto ao que cabe à transposição fílmica de uma narrativa, e, assim, façamos desse blog um fórum de discussões em que o público diverso manifesta suas impressões, tece críticas e acalora o debate literário no cenário brasileiro.

Aguardo suas contribuições por e-mail. Ensaios, resenhas, enfim, manifestem-se, amigos, nesse espaço que é de vocês!!

Um forte abraço a todos,

Brenno Carriço - Editor-chefe do blog Grupo de Pesquisa EELLIP | UFPA - João Guimarães Rosa: arquivo & debates na Amazônia.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O Vampiro de Curitiba recebe Prêmio Camões na BN

Na noite de quarta-feira (12/12), foi realizada a cerimônia de entrega do principal reconhecimento da literatura em língua portuguesa, o Prêmio Camões. O homenageado da noite foi o autor Dalton Trevisan, conhecido como o “Vampiro de Curitiba”. “Nunca jamais pensei em merecer tamanha honrosa distinção”, agradeceu por meio de fax lido pela vice-presidente da Editora Record.

Considerado o maior contista contemporâneo, Dalton Trevisan acumulou vários prêmios durante a vida literária, sua primeira publicação Novelas Nada Exemplares (1959) recebeu o Prêmio Jabuti. Seu único romance, A polaquinha (1985), ganhou o Prêmio Ministério da Cultura de Literatura em 1996. A obra figura na lista dos 10 livros que receberam bolsas do Programa de Apoio à Publicação de Autores Brasileiros na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, da FBN, em 2012.

Em 2003, dividiu com Bernardo Carvalho o Prêmio Portugal Telecom de Literatura com o livro Pico na Veia e, este ano, venceu novamente o prêmio na categoria conto e crônica com a obra O Anão e a Ninfeta. O autor publicou também Morte na Praça (1964), Cemitério de Elefantes (1964), A guerra Conjugal (1969), Crimes da Paixão (1978), Ah, É (1994), O Maníaco do Olho Verde (2008), Violetas e Pavões (2009), Desgracida (2010), entre outros.

Alheio à personalidade reclusa do escritor, o júri o escolheu por unanimidade, ressaltando sua dedicação ao fazer literário. “Dalton Trevisan significa uma opção radical pela literatura enquanto arte da palavra” justificou a Ata do Júri, lida pelo cônsul geral de Portugal no Rio de Janeiro, Nuno Bello ao entregar o prêmio. A outorga, realizada em conjunto pelo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, e por Bello, representando a Secretaria de Cultura de Portugal, é o máximo reconhecimento da literatura em língua portuguesa.


Fonte: BLOG DA BN

Ficção, compadrio e as tias – Beatriz Resende e Alcir Pécora


Neste terceiro debate da seção “Desentendimento”, os críticos literários Beatriz Resende e Alcir Pécora refletem sobre a literatura brasileira contemporânea. A mediação ficou a cargo de Paulo Roberto Pires, editor da revista serrote. A cada mês, o leitor encontrará no blog um debate em vídeo em que os convidados apresentam opiniões divergentes sobre um tema proposto pela revista serrote.


Blocos I e II

Ao pensar sobre o panorama da literatura contemporânea não apenas brasileira, Alcir Pécora afirma que o americano Paul Auster é um autor medíocre, que vive “da tentativa canhestra de parecer engajado”. Pécora refere-se especificamente ao romance Invisível, em que Auster estaria reelaborando questões como o “colonialismo de má consciência” ou “refazendo lugares-comuns e produzindo um romanesco do incesto”. Em seguida, o alemão Bernhard Schlink é visto com reservas pelo crítico. Seu famoso livro O leitor operaria um tema grave (o nazismo) para criar, no fundo, uma história detetivesca permeada por clichês. Esses são dois exemplos em que Pécora identifica um esgotamento do discurso ficcional.

No bloco seguinte, Beatriz Resende chama a atenção para o risco de comparar autores de origens literárias diferentes, uma vez que haveria um confronto desigual de produção. E diz acreditar não ser mais possível haver uma literatura nacional, uma vez que o escritor está sempre sujeito a contaminações de diversas técnicas e linguagens. Já Pécora reafirma ver a impossibilidade de criação de uma nova literatura. E desautoriza o rótulo Geração 90 atribuído a um grupo de escritores paulistas, já que seus autores não teriam promovido uma ruptura verdadeira com modelos anteriores.



Blocos III e IV

Depois das restrições feitas à Geração 90 e ao corporativismo entre os escritores brasileiros, o terceiro segmento avança esse debate. Ambos os críticos condenam a ausência do embate de ideias entre os autores e a relação de cumplicidade que mantêm. “O lugar da literatura virou o lugar das tias”, diz Pécora. Para Beatriz Resende, além de alguns grupos combinarem elogios mútuos, chegam a formam “gangues”, que podem isolar um escritor da mídia.

No quarto bloco, os debatedores refletem sobre um tema crucial: a oposição entre estímulos para o consumo de livros e mecanismos para a formação de leitores. O papel da crítica e da universidade para pensar a literatura contemporânea é o tema que fecha o encontro.




Fonte: BLOG DO IMS

Borges e Neruda: o gênio além da ideologia

Algumas tentativas da percepção para transcender o conflito entre a lucidez e a sombra nas obras de dois nomes decisivos da literatura


De perto somos todos normais: de esquerda, de direita, de centro, alienados. De longe, quando a persona é vista em sua inteireza, que só pode ser expressada pelo talento de cada um, o bicho pega. Jorge Luis Borges e Pablo Neruda causam desconforto quando se fala neles. Um porque apoiou a ditadura argentina, outro porque foi ministro do governo de Salvador Allende. Essa maldição que persegue o gênio nos afasta da essência de suas obras. Neste ensaio, alguns pontos focais do trabalho inumerável de dois mestres da literatura universal. Um exercício de ver com os olhos livres e deixar de lado o que é datado e perecível, mesmo que o talento se expresse às vezes sob a ótica contaminada por convicções ideológicas. Fica no ar a pergunta: é possível uma obra transcender suas fontes mesmo quando não havia intenção de transcendência?

Próximo demais da luz

Iluminado pelas leituras de toda uma vida, Jorge Luis Borges descobre o essencial quando finalmente é empurrado para a sombra. A cegueira, dura presença aos 70 anos de idade, o deixa só diante da fonte que alimenta os clássicos — sua paixão explícita, uma rede tecida desde Virgílio a Kipling.

Nesse ambiente onde as palavras são desmascaradas — porque revelam-se desnecessárias — o escritor transforma-se no oculto veio que pacientemente garimpou nas bibliotecas, e que faiscava nos olhos de uma leitura privilegiada — árvore generosa de onde brotaram seus livros.

Memória, então torna-se esquecimento, a literatura transmuta-se em vida e a poesia é a alta gávea que anuncia a descoberta. Em “Elogio da Sombra”, não é a treva que ofusca a obra, mas um outro sol, imaginário antes, real agora, quando tudo vira linguagem. Inclusive o que não pode ser alcançado pelo poema, apenas sugerido, como os volumes submersos para sempre no alto das prateleiras.

Ao desistir de tudo, o escritor emerge como personagem, abandonando os leitores à própria sorte. Não foge, se encontra. Não trava, desanda. Não morre, eterniza-se. Aproveita para fazer um inventário, que passa por He­ráclito, Zeus, Buenos Aires, Joyce, Israel, o pampa — todos cenários que somem na neblina depois da última linha.

Mas fingir-se de morto não era seu objetivo. Sua intenção de identificar-se com a matéria-prima que o envolveu o tempo todo, é sincera. Retira-se da casa onde habitou para um lugar mais profundo, menos visível, mas indestrutível: é de lá que fluem os materiais forjados pelo gênio. A humildade diante do absoluto pode ser encarada como mais um jogo de sua predileção, mas o que salta à vista é a sobriedade inspirada pela presença da morte.

Esse é o seu destino: vazar o corpo fechado da razão para nele transparecer a loucura. Não o desatino dos doidos, mas a ardente lucidez da sabedoria.

Borges aproximou-se demais da luz e, aparentemente, recusou-se a tocá-la. Virou os olhos para o outro lado e nesse movimento, conquistou o definitivo espaço dos mestres. Ele nos conduz pela mão e, na beira do abismo, desaparece.
Ficamos, então, reduzidos ao pó de suas palavras, que ressoam como um sussurro, a ecoar a suprema ironia dos deuses. O livro não passa de uma armadilha. O que temos na mão é pura paisagem, rede que abraça a pedra na praia, e nos enreda, sugerindo afogamento. Quem, de sã consciência, teimará em escapar desse laço?

Cultura popular

Em “O Informe de Brodie”, coletânea de contos, o olhar “es­trangeiro” de Jorge Luis Borges sobre seu próprio povo denuncia suas convicções sobre a cultura popular. Admirador da poesia gauchesca, obra de advogados e jornalistas de Buenos Aires e Mon­tevidéu, ele descobre que os mitos do pampa não passam de uma nostalgia urbana. Fica, portanto, à vontade para abordar, sem concessões, as margens de uma nacionalidade mestiça, da capital e do interior da Argentina, onde recria, a seu modo, narrativas que todos teimam em lembrar.

Sem pactuar com o derramamento emocional que o cerca, o aço de sua escrita é temperada pelo calor da barbárie pingando sangue. Não há heróis para saudar, a não ser a experiência repassada pelas gerações, onde sobressai a traição, o crime, o ciúme e a falta de importância das personagens. É como se navegasse a favor da corrente de episódios e lendas que seu interesse acumulou, mas com a originalidade de uma linguagem sem raízes.

No rumo das lendas repassadas de boca a boca, obedece a mapas bem demarcados de suas leituras prediletas, livre das obsessões que ocuparam vasto espaço do seus contemporâneos. Ele sabe que a literatura tradicional não se opõe às novidades da vanguarda, já que é “feita de um conjunto secular de aventuras”. Insiste nessa matriz, consciente da sua infinita capacidade de encantamento.

Desse movimento que flui eternamente, porque realimentado pela memória e por ouvidos sempre atentos dispersos em todas as rodas e confidências, ele aponta para uma cultura que precisa se descobrir para mudar. Haverá saída para um universo onde o assassinato é permitido pelo cinismo da guerra? Sim, se o escritor conseguir despertar o horror ao descrever a cena.

A chave dessa ética cevada na solidão é a viagem hipnótica que a civilização desenvolve ao coração da crueldade: não haverá remissão se a ordem da escrita não dominar o caos da oralidade. Mas essa ordem já nasce, em Borges, contaminada pelos fantasmas de generais, damas, duelos, degolas. É co­mo se houvesse uma rendição, mas sem desonra. É a única vitória possível por um autor especializado em calamidades.

O truque é abrir mão do papel principal, mas não da autoria da trama. A Argentina, assim, transforma-se em puro Borges, o que não deixa de ser uma extrema ironia deste platino com os olhos voltados para a Inglaterra, que no deserto cultivou-se cosmopolita e foi um bibliotecário encerrado numa geografia ágrafa.

Épico insurgente

Neruda perdeu a terra e tenta recuperá-la por meio da poesia. Mas o que aparece no livro “Donde Nasce A Chuva” (tradução de Carlos Nejar), primeiro dos cinco volumes do seu “Memorial de Ilha Negra”, escrito aos 60 anos, não é apenas o Chile (e por extensão, a América Latina), mas principalmente a destruição da sua identidade pessoal. O poeta se debruça sobre sua infância, sobre sua cidade, e reconstitui esse processo de destruição para se redescobrir e recuperar o fio, apesar de saber que nunca será o mesmo e que está condenado, como todos, a uma viagem sem volta. No seu caso, essa viagem o levaria ao breve tempo de esperança no governo Allende e depois à morte, nos dias terríveis de setembro de 1973.

É por isso que Neruda não deixou, como herança, apenas uma descrição de sua terra, mas sua caminhada, sua tentativa de humanizar o homem destruído pela pressão social, sua vontade de recompor o mundo à imagem pura das matas de Temuco, onde “do machado e da chuva foi crescendo a cidade madeireira recém-cortada como nova estrela com gotas de resina”.

O livro é sobre a descoberta do mundo, os primeiros passos do poeta, suas revelações por meio da dor, sua passagem para novos estados de consciência que, ao mesmo tempo, o afastavam de suas raízes. Esse mundo nasce da cidade madeireira, da descoberta emocionada dos pais, da experiência de terror e lucidez nas matas e no mar, da adolescência tímida que descobriu o sexo, o colégio, o livro, e o levou à poesia, ao medo na capital e à rotina na pensão da rua Maruri.

Pelos olhos de Neruda passeiam as assombrações do seu Tio Genaro que veio das montanhas, as paisagens da terra — como nos poemas “Lago dos Cisnes” e “A Terra Austral” — e do povo, como em “A Injustiça” e “O Trem Noturno”. E, principalmente, a mudança do seu rosto, como neste trecho de “O Menino Perdido”: “E de repente apareceu em meu rosto um rosto de estrangeiro e era também eu mes­mo: era eu que crescia, eras tu que crescias, era tudo, e mudamos e nunca mais soubemos quem éramos, e às vezes recordamos aquele que viveu em nós e lhe pedimos algo, talvez que nos recorde, que saiba pelo menos que fomos ele, que falamos com sua língua, mas desde as horas consumidas nos olha e não nos reconhece”.

Talvez só a poesia possa redimir o exílio, pois joga com a memória afetiva, redescobrindo o clima dos acontecimentos e as dimensões do homem nas suas viagens pelo furacão. Recompõe assim a história pessoal de uma coletividade, procura um rosto que permaneça e reine acima da perda, do eterno sentimento de derrota, dos foragidos que trocam de mundo também por que são empurrados, e não somente por sua sede de aventura. Neruda, apesar de eterno passageiro desse trem que nunca para, procura a memória social por meio de sua existência individual, recuperando a terra perdida e cumprindo seu destino de poeta e cidadão do mundo.

A história de Neruda, por sorte, é a história do povo. Nascido da chuva, da madeira, do pão e do vinho, ele é capaz de se identificar com os movimentos da terra e do tempo, retratando a aventura numa época de dispersão e miséria. Por ter descoberto a identificação do seu destino com o destino do Chile, pode-se dizer que Neruda, como todos os grandes poetas, é a pátria procurada pelos abandonados, pelos que foram varridos da sua terra, tanto pelo tempo como pela guerra. Felizmente, a tradução de Carlos Nejar conserva essa mágica experiência, por meio de um bom senso criativo, sem pretensões e exato. E há a vantagem de ser uma edição bilíngue, onde Nejar mostra-se útil até o fim.

O animal ferido da palavra

Poesia é a palavra diante da morte, a distância de um braço entre o poeta e seu destino. A tensão permanente do poema é a visão desse desenlace e é disso que se alimenta a sua eternidade. É por isso que o poeta sobrevive, não porque lute para ficar vivo, mas porque escreve sabendo que vai morrer. Quando, enfim, a última batalha desce sobre seu corpo em brasa, a obra grita, como condenada.

Pablo Neruda, morto há quase 40 anos, encarna esse animal que cruza todas as fronteiras e regressa à pátria para ser assassinado. Está na moda hoje destruir o mito para celebrar a exposição das vísceras, compensação de um tempo onde triunfa a indiferença. Assim, o vazio é confundido com virtude para privilegiar os “erros” de Neruda, como um poema para Stálin, por exemplo. Mas o que é datado, no poeta, morre com ele. O que permanece é o crepúsculo enrolado aos seus pés e a solidão, como um túnel.

Não é apenas a sua lírica que cresce quanto mais nos distanciamos do réquiem de 21 de setembro de 1973. Assoma a pátria, sua metáfora extrema: na hora em que morria , era o Chile que estava sendo devorado. Pois não bastava matar o presidente, era preciso também eliminar a esperança. Neruda entendeu que tinha chegado a sua hora. E acabou-se, puxando a toalha no momento em que os tiranos comemoravam a vitória.

Do seu engajamento fica essa encarnação do povo e terra, o lirismo épico de sua caminhada, a manutenção do mito, não restrito ao seu país. Ele pertencia a uma raça quase extinta, aquela que sumiu do mapa porque o mundo mudou de estilo. Já foi longe a época em que as nações cultivavam seu poeta, que recitava versos na praça e traçava biografias andarilhas.

Ele alimentava assim a multidão faminta de história, ainda presa a palavras hoje mortas, como atávico, mártir, telúrico. Era um artista popular da palavra, mas a mensagem que ele inventou para a rápida passagem do tempo atraiu a atenção dos lobos. Minaram então sua sorte trazida do berço, desmoralizaram seu andar partido, imitaram seu timbre, roubaram-lhe a voz. Pablo Neruda é a expressão maior desse romantismo tardio, desse último suspiro da imaginação emocionada, que morre nos braços do povo ao som da metralha.

Hoje, quando o Chile é visto pela sua performance econômica, seu perfil de tigre, lembramos o comportamento dos chacais. As manifestações nos aniversários do golpe de 1973 não podem prescindir da visita ao túmulo do poeta, gritar seu verbo em praça pública. Para o Brasil, retalhado numa guerra interminável — exatamente porque adiamos todos os desenlaces — ele inspira o tom de eternidade, que nos escapa. Estamos presos demais à pressa, à ilusão eterna do presente.

Muitos poetas apostam no supérfluo, no fugaz, no palavrão — ainda iludidos de que é possível “chocar” alguém com gestos ou palavras, não fôssemos nós observadores permanentes das chacinas. A poesia brasileira costuma ficar dividida entre o mimetismo nerudiano e o espólio da demolição con­cretista, entre a pomposidade inútil e o falso vanguardismo. Estamos mergulhados demais no horror para enxergar a poesia.

É nesse túnel que deve se desenhar o poema ainda em silêncio, como um animal ferido. A longa cicatrização imobiliza o gesto, enquanto a palavra estilhaça nos vidros de uma nação que derrapou. Nesse exílio obrigatório, a morte de Neruda abre uma trilha. Ele identificou-se com a grandeza e a tragédia chilena e tornou-se o mais caro patrimônio do país. Precisamos deixar que ele nos toque com os dedos longos da palavra.

Não podemos entretanto, mergulhar no equívoco de endeusá-lo, nem nos deixar enganar pela maior parte da sua obra póstuma. O que ele mesmo publicou já basta: “Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada”, “Con­fesso que Vivi”, As Mãos do Dia”, “Canto Geral”, entre outros livros iluminados.

- Nei Duclós -


Fonte: BULA REVISTA