segunda-feira, 24 de junho de 2013

VI SEMINÁRIO ROSIANO FOI ADIADO PARA OS DIAS 8 E 9 DE AGOSTO

Em virtude de problemas de caráter operacional e de ensino (coincidência com período de avaliação), informamos que o VI Seminário Rosiano foi transferido para o mês de agosto próximo, dias 8 e 9.

Desculpem pelo transtorno e obrigado pela compreensão.

terça-feira, 4 de junho de 2013

A decisão do CONSEPE/UFPA quanto à adoção do ENEM e a morte do ensino de Literatura no Ensino Médio

Após a decisão do CONSEPE/UFPA quanto à adoção do ENEM (apesar das inúmeras falhas, vazamentos de questões, correções estranhíssimas, minimização da Literatura, monocentrismo pedagógico, falhas de concepção e outros males) está declarada a morte do ensino de Literatura no Ensino Médio. Quem sentirá, realmente, falta desse ensino? Os alunos de Letras ou de História? Em nome de um exame monocrático, supostamente republicano e democrático, é chegada a hora de lançar a última pá de cal sobre o cadáver da Literatura. Para que se ensinar tanto conteúdo regional em Ciências Humanas? Por que abrir tanto espaço para a Cabanagem ou Max Martins? Por que um aluno de Porto Alegre que pretenda estudar em Belém precisa conhecer Marques de Carvalho? Observe-se a omissão do ENEM quanto à Literatura Portuguesa, muito distante e transatlântica para permitir partir do princípio simplório de ensinar "a partir da realidade do aluno". A Educação deveria, antes, negar a realidade (em geral opressiva, excludente, injusta) do aluno. Em nome do combate à dicotomia língua/literatura, anula-se a diferença ontológica entre ambas: uma determinada forma linguística documenta certo aspecto da língua falada, não se pondo em questão a sua dimensão estética, mas sim funcional. Assim, não se justifica pensar que o estudo de um poema faz parte da língua portuguesa em uso (os famigerados parâmetros nacionais); na verdade, a língua é um entre vários elementos mobilizados pelo artista. Eu lamento que isso ocorra sem nenhuma discussão interna, nas bases políticas que sustentam a Universidade. Uma aluna de Letras (!) declarou que a Literatura "não serve para nada". É, talvez, ela tenha razão e seja eco de um consenso medíocre do qual ouso discordar.

Texto: Prof. Dr. Sílvio de Oliveira Holanda.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Edital do Santander para Universidades Bolsas Ibero-Americanas

A Universidade Federal do Pará (UFPA), por meio da Pró-Reitoria de Relações Internacionais (Prointer), lança o Edital de Mobilidade Acadêmica Internacional, no âmbito do Programa Santander Universidades Bolsas Ibero-Americanas para Estudantes de Graduação. Os interessados podem se inscrever até o dia 18 de agosto. Confira o Edital.

O objetivo do programa é propiciar aos estudantes de graduação uma oportunidade de acesso a culturas estrangeiras, realizando um semestre de intercâmbio em renomadas universidades ibero-americanas conveniadas com o Programa Santander e com a UFPA.

Portugal e Espanha - Das dez vagas ofertadas, cinco serão direcionadas para Portugal, sendo duas para a Universidade de Porto, e as outras três para o Instituto Politécnico de Setúbal (IPS), o Politécnico do Porto, a Universidade da Beira Interior, a Universidade de Coimbra e a Universidade Técnica de Lisboa. As outras cinco vagas são para a Espanha, onde o Programa faz parceria com a Universidad Autónoma de Madrid, a Universidad Complutense de Madrid, a Universidad de Alicante, a Universidad de Granada, a Universidad de Salamanca, a Universidad de Málaga, a Universidad de Barcelona, a Universidad Autónoma de Barcelona, a Universidad de Valência e a Universidad Santiago de Compostela.

O aluno interessado em participar deve estar matriculado na UFPA, cursar a partir do 5º semestre, ter Coeficiente de Rendimento igual ou superior a oito, com, no máximo, duas reprovações, e deve possuir, no mínimo, 40% dos créditos obrigatórios previstos em seu curso. Estudantes que já participaram de programas de mobilidade para o exterior, mantidos pela UFPA, não poderão participar da Seleção.

Como participar - Para se inscrever, os alunos devem separar cópias do comprovante de inscrição, preenchido, e do passaporte; comprovante de matricula; Histórico Escolar da UFPA, junto com o Coeficiente de Rendimento; Currículo Lattes; carta de intenção do candidato, apresentando os motivos pelos quais deseja participar do programa; carta de recomendação, assinada por um professor da UFPA; Certificado de Língua Estrangeira, caso deseje o intercâmbio da Espanha; e dois planos de estudos. Esses documentos deverão ser entregues na Prointer, localizada no 3° andar do prédio da Reitoria da UFPA, Campus Básico, ou na Travessa 3 de Maio, 1573, em um envelope com a inscrição Programa Santander Universidades Bolsas Ibero-Americanas 2013. O horário é das 9h às 11h e das 14h30 às 16h.

Texto: Carlos Fernando Pinheiro – Assessoria de Comunicação da UFPA
Arte: Reprodução

Fonte: Portal UFPA

segunda-feira, 20 de maio de 2013

CHAMADA: SUBMISSÃO DE ARTIGOS - REVISTA GRAPHOS 2013.2



A Revista Graphos, veículo de divulgação científica do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPB, ISSN 1515-1536, avaliada com o índice Qualis B2, comunica a todos os interessados (pesquisadores, docentes e doutorandos de programas de pós-graduação em Letras) que está aberta a chamada para submissão de textos com vistas à publicação no número temático 2013.2. Nessa edição, publicaremos trabalhos dedicados ao tema “Literatura e Psicanálise”.


Organizadoras:
Socorro de Fátima Pacífico Barbosa (UFPB)
Márcia Maria Rosa Vieira (UFMG)

Prazo para submissão de trabalhos: 30 de julho de 2013.

Todo o processo de submissão dos artigos deve ser feito através da página eletrônica da revista, no endereço eletrônico http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/graphos/index, onde estão disponíveis também as orientações necessárias para a formatação e envio dos textos.

Cordialmente,
Expedito Ferraz Jr.
Fabricio Possebon
Editores



Chamada para publicação — ABRALIC

As normas estão na nossa página em Publicações, são as mesmas que serviram para os números 18 e 19

Número 22: Ensino de literatura e comparativismo 

O ensino de literatura, nas últimas décadas, vem sendo objeto de discussão e de pesquisas em diferentes universidades do país. Tendo em vista que o modelo vigente de ensino de literatura pouco tem contribuído para formar leitores, justifica-se a busca por novas metodologias de abordagem do texto literário em situação de ensino. Reflexões teóricas, como as trazidas pela estética da recepção, deslocando o foco da leitura para o leitor, veem abrindo caminho para se pensar um ensino que tenha como eixo a vivência do jovem leitor com as obras e não a assimilação de um ensinamento e a introjeção de interpretações autorizadas. Neste sentido, o comparativismo poderá contribuir para o ensino da literatura, apontando possibilidades de diálogo entre textos literários de diferentes gêneros e épocas, bem como entre a literatura e outras artes. O diálogo entre textos, culturas, tempo e espaços diversos poderá ser instrumento dinamizador do trabalho com o texto literário, numa perspectiva que valorize a experiência do leitor e favoreça o papel de mediador do professor. Os artigos propostos para este número da Revista da ABRALIC poderão explorar tanto um caráter mais teórico, quanto descrever vivências inovadoras, devidamente fundamentadas, sobre o ensino da literatura.

Prazo para submissões para o número 22: 12 de agosto de 2013

Número 23: A literatura comparada hoje

Desde que se tornou disciplina, método de abordar o objeto de estudo, ciência, o comparativismo literário tem sido redefinido em razão dos próprios objetos relacionados, das línguas e culturas postas em questão, da emergência de escritas várias e suportes que ultrapassaram a escrita verbal e o livro impresso como modelo. As relações comparadas inter e intralingual, objetos e suportes como literatura escrita e cinema, vídeo e música, discursos e performances, academia e ensino, centros e margens parecem operar a dinâmica do comparativismo hoje. Nesta perspectiva, o número 23 da Revista Brasileira de Literatura Comparada reunirá artigos que problematizem a literatura comparada hoje em suas várias versões ou modus operandi.

Prazo para submissões para o número 23: 12 de agosto de 2013

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Chamada para publicaçao - Revista Cisma



A Cisma é uma revista semestral de crítica literária e tradução, criada por alunos da graduação do curso de Letras da Universidade de São Paulo. A primeira edição, com o tema TUDO JÁ FOI DITO foi lançada em Setembro de 2012, em versão impressa e virtual. A segunda edição, abordando o tema LITERATURA CONTRALITERATURA, deve sair em maio de 2013.

O tema do TERCEIRO NÚMERO presta uma homenagem ao centenário de Vinicius de Moraes, mas também conversa com a questão da alteridade da literatura e (por que não?) com a insularidade da academia:

REVISTA CISMA N. 3: QUEM DE DENTRO DE SI NÃO SAI

Do famoso verso da canção “Berimbau” (Vinicius de Moraes/Baden Powell):

...quem de dentro de si não sai

vai morrer sem amar ninguém...

Para enviar seu texto, é necessário cadastrar-se no site. Para mais informações, clique em "Sobre a Revista" > "Submissões Online"

ENVIO DE TEXTOS ATÉ O DIA 03 DE JUNHO DE 2013

Confira também outras novidades na nossa página do facebook: http://www.facebook.com/revistacisma



quarta-feira, 15 de maio de 2013

A última entrevista de Guimarães Rosa

Uma preciosidade histórica da língua portuguesa: a entrevista realizada pelo escritor e jornalista português Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Guimarães Rosa morreria menos de um ano depois de tê-la concedido.



Eis o homem. O homem que em menos de 20 anos, com sua prosa, seu estilo, sua literatura — sem os favores profissionais da medicina, que pode dar saúde mas ainda não deu gênio (cf. alguns prêmios Nobel), conquistou o Brasil, Portugal, a Alemanha, a Itália, os Estados Unidos, o mundo, não?

Repara no corpo: mau grado as ligeiras ameaças de obesidade, parece atleta, cavaleiro que foi, ou de bandeirante, que da língua é. Vê como está sobriamente elegante, distinto, sorridente, calmo, aristocrata, como convém a um embaixador (ou não estivéssemos num salão do Itamarati). Mas nada da pose ou dos gestos artificiais com que outros tentam iludir a mediocridade. Quem esperou quase quarenta anos para publicar o primeiro livro, ou quem avançou sozinho pelos grandes sertões da língua, não precisa ter pressa nem pedir emprestado um corpo, uma casaca, máscaras.

Lá está o lacinho (ou gravata-borboleta, meu chapa?) simetricamente impecável, fazendo pendant com os óculos claros, tão claros que ainda esclarecem mais os olhos sempre inquiridores, atentos. E é curioso como um mineiro de Cordisburgo, a dois passos (brasileiros) da Ita­­bira de Drum­mond, gosta, ao contrário deste (à primeira vista), de falar, de con­tar, de ser ouvido. Até nisso parece grande o seu amor à língua. Mal me sentei, já ele me começou a falar de Portugal e de escritores portugueses…

Estive em Portugal três vezes. Na primeira, em 1938, passei lá apenas um dia; ia a caminho da Alemanha. Na segunda, em 1941, passei lá quinze dias, em cumprimento de uma missão diplomática que me fora confiada em Ham­­burgo. Na terceira, em 1942, passei um mês, pois estava já de regresso ao Brasil, por causa da guerra.

Durante essas estadas, travou relações ou conhecimentos com alguns escritores?

Não. Até porque eu ainda não era “escritor” (“Sagarana”, com efeito, só foi publicado em 1946) e o que me interessava mais era contatar com a gente do povo, entre a quais fiz algumas amizades. Gosto mui­to do português, sobretudo da sua integridade afetiva. O brasileiro também é gente muito boa, mas é mais superficial, é mais areia, enquanto o português é mais pedra. Eu tenho ainda uma costela portuguesa. Minha família do lado Gui­marães é de Trás-os-Montes. Em Minas o que se vê mais é a casa minhota, mas na região em que eu nasci havia uma “ilha” transmontana.

Mas não chegou a conhecer Aquilino?

Conheci Aquilino (Aquilino Ribeiro), mas acidentalmente. Eu entrei numa livraria, não sei qual, do Chiado (presumo que a Bertrand) e, quando pedi al­guns livros dele, o empregado per­guntou-me se eu queria co­nhecê-lo, pois estava ali mesmo. Respondi que sim, e desse modo obtive dois ou três autógrafos de Aquilino, com quem conversei alguns instantes. Voltei a estar com ele, mais tarde, num jantar que lhe foi oferecido enquanto de sua vinda ao Brasil. Mas ele, naturalmente, não se recordava de mim (porque eu não me apresentara como escritor), e eu também não lhe falei do assunto.

Não sabe que, justamente numa crônica motivada pela sua ida ao Brasil, Aquilino colocou o seu nome, logo em 1952, ao lado dos de José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Jorge de Lima e Agripino Grieco, que, segundo ele, eram os “notáveis escritores e poetas” que estavam a “encostar a pena contra a lava” que ia no Brasil “sepultando prosódia e morfologia da língua-mater”? Eu creio mesmo que é essa uma das primeiras referências ao seu nome, em Portugal…

Não sabia dessa curiosa referência do Aquilino. Antes dessa, porém, há uma referência a mim numa publicação do Consulado do Porto, de 1947, feita por não sei quem. Sei de outra referência feita, anos depois, salvo erro, por um irmão de José Osório de Oliveira.

Voltando a Aquilino: acha que recebeu alguma influência dele? Já, pelo menos, um crítico, o mineiro Fábio Lucas, notou alguns “pontos de contato nada desprezáveis” entre a sua obra e a de Aquilino.

Eu gosto de Aquilino, sobretudo da “Aventura Maravilhosa”, mas não creio que dele tenha recebido alguma influência, a não ser na medida em que sou influenciado por tudo o que leio. A verdade é que antes de 1941 só conhecia de Aquilino um ou dois trechos, co­mo infelizmente ainda hoje sucede em relação à quase totalidade dos escritores portugueses vivos. E, como sabe, “Sagarana”, foi escrito em 1937.

Um garçom do Itamarati entra com um copo de água, e pergunta se precisa mais alguma coisa. Guimarães Rosa agradece e diz: Vá com Deus, como se fosse um beirão ou um transmontano. Mais uma razão, portanto, para eu prosseguir: Como encara ou explica o enorme prestígio de que goza nos meios intelectuais e universitários portugueses?

Em relação a mim, houve por aqui (no Brasil) muitos equívocos, que ainda hoje não desapareceram de todo e que, curiosamente, ao que parece, não houve em Por­tugal. Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudição. Ora o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal, o que explica as suas tendências arcaizantes para lá do vocabulário muito concreto e reduzido. Talvez por isso que ainda hoje eu tenha verdadeira paixão pelos autores portugueses antigos. Uma das coisas que eu queria fazer era editar uma antologia de alguns deles (as antologias que existem não são feitas, como regra, segundo o gosto moderno), como Fernão Mendes Pinto, em quem ainda há tempos fui descobrir, com grande surpresa, uma palavra que uso no “Grande Sertão”: amouco. E vou dizer-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém: o que mais me influenciou, talvez, o que me deu coragem para escrever foi a” História Trágico-Marítima” (coleção de relatos e notícias de naufrágios, acontecidos aos navegadores portugueses, reunidos por Ber­nardo Gomes de Brito e publicados em 1735). Já vê, por aqui, que as minhas “raízes” es­tão em Portugal e que, ao contrário do que possa parecer, não é grande a distância “linguística” que me se­para dos portugueses.

Eu penso até que na imediata e incondicional adesão portuguesa a Gui­marães Rosa há muito de transferência sublimada de uma frustração linguística nossa, coletiva, que vem pelo menos desde Eça. Mas não nos desviemos. Admira-me muito que não tenha citado ne­nhum livro de ca­valaria, nem ne­nhuma novela bu­cólica, pois pensava que deles e delas havia diversas ressonâncias na sua obra, sobretudo no “Gran­de Sertão: Veredas”…

Sim, li muitos livros de cavalaria quando era menino, e, por volta dos 14 anos, entusiasmei-me com Ber­nardim (Bernardim Ri­beiro), e depois até com Camilo. Ainda continuo a gostar de Ca­milo, mas quem releio permanentemente é Eça de Queiroz (quando tenho uma gripe, faz mesmo parte da convalescença ler “Os Maias”; este ano já reli quase todo “O Crime do Padre Amaro” e parte da “Ilustre Casa de Ramires”). Camilo, leio-o como quem vai visitar o avô; Eça, leio-o como quem vai visitar a amante. Quando fui a Portugal pela primeira vez, eu só queria comidas ecianas (que gostosura, aquele jantar da Quinta de Tormes). Aliás deixe-me que lhe diga que me torno muito materialista quando penso em Portugal; penso logo nos bons vinhos, nas excelentes comidas que há por lá. E talvez seja também por isso que se há um país a que eu gostaria de voltar é Portugal…

… que, naturalmente, o receberá de braços abertos, em festa. Mas permita-me ainda uma pergunta: como “enveredou” — e penso que a palavra se ajusta bem ao seu caso – pelo campo da “invenção linguística?

Quando escrevo, não pen­so na literatura: penso em capturar coisas vivas. Foi a necessidade de capturar coisas vivas, junta à minha repulsa física pelo lugar-comum (e o lugar-comum nunca se confunde com a simplicidade), que me levou à outra necessidade íntima de enriquecer e embelezar a língua, tornando-a mais plástica, mais flexível, mais viva. Daí que eu não tenha nenhum processo em relação à criação linguística: eu quero aproveitar tudo o que há de bom na língua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Mo­çambique, e até de outras línguas: pela mesma razão, recorro tanto às esferas populares como às eruditas, tanto à cidade como ao campo. Se certas palavras belíssimas como “gramado”, “aloprar”, pertencem à gíria brasileira, ou como “malga”, “azinhaga”, “azenha” só correm em Por­tugal — será essa razão suficiente para que eu as não empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. Há muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso é o que me leva a buscar ou a criar outras. E faço-o sem­pre com o maior respeito, e com alma. Respeito muito a língua. Escrever, para mim, é como um ato religioso. Tenho montes de cadernos com relações de palavras, de expressões. Acompanhei muitas boiadas, a cavalo, e levei sempre um ca­derninho e um lápis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido — até o cantar de pássaros. Talvez o meu trabalho seja um pouco arbitrário, mas se pegar, pegou. A verdade é que a tarefa que me impus não pode ser só realizada por mim.

Guimarães Rosa vai buscar uma fotografia para me mostrar onde levava o caderninho de notas, nas boiadas: vai buscar uma pasta com a correspondência com um seu tradutor norte-americano, para me mostrar as dúvidas e dificuldades deste, e o trabalho, a seriedade e a minúcia com que as vai resolvendo uma por uma (escrevendo, ele próprio, preciosas autoanálises estilísticas ou considerações filológicas). E, entretanto, vai-me fazendo outras confissões interessantes. Por exemplo: “gosto das traduções que filtram. Da tradução italiana do Cor­po de Baile gosto mais do que do original.” Ou: “Estou cheio de coisas para escrever, mas o tempo é pouco, o trabalho é lento, lambido, e a saúde também não é muita.” Ou: “Não faço vida literária: como regra, saio daqui e vou para casa, onde trabalho até tarde.” Ou: “No próximo ano, vou publicar um livro ainda sem título, com 40 estórias” (que têm aparecido quinzenalmente, no jornal dos médicos “O Pulso”, onde frequentemente aparecem também cartas ou a atacá-lo ou a defendê-lo ferozmente). Ou ainda: “eu não gosto de dar, nem dou entrevistas. Tenho sempre a sensação de que não disse o que queria dizer, ou que disse mal o que disse, ou que criei maior confusão; e não estou assim tão seguro do que procuro e do que quero. Com você abri uma exceção…”.
Nota: Entrevista realizada pelo escritor e jornalista Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Publicada no livro “Conversas com Escritores Brasileiros”, editora ECL em parceria com o Congresso Portugal-Brasil.

Fonte: Revista Bula