segunda-feira, 22 de abril de 2013

Revista Machado de Assis abre inscrições para Literatura e Ensaio

Quarto número aceitará traduções de trechos de obras não ficcionais, além de ficção, para divulgação no exterior

A Fundação Biblioteca Nacional (vinculada do Ministério da Cultura), que edita a Revista Machado de Assis - Literatura Brasileira em Tradução, em coedição com o Itaú Cultural, e parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e o Itamaraty, anuncia nesta segunda-feira que estão abertas até 20 de maio de 2013 inscrições para o quarto número da publicação. Além de primeiros capítulos ou trechos de obras literárias de ficção e de criação poética, a nova convocatória está aberta para trechos de obras não ficcionais. Todos os trechos devem ser de obras brasileiras já lançadas no Brasil.
O quarto número aceitará a inscrição de trechos de obras de literatura e humanidades, especialmente dos seguintes gêneros: romance, conto, poesia, crônica, livro-reportagem, ensaio literário, ensaio de ciências sociais e ensaio histórico.
Os textos devem ser enviados já traduzidos ou para o inglês ou para o espanhol. O número será publicado no portal da revista [www.machadodeassismagazine.bn.br].
A cada edição são escolhidos 20 textos pelo Conselho Editorial da Machado de Assis. Trimestral em sua versão on-line e com dois números impressos por ano, a revista tem circulação internacional. O objetivo é difundir e estimular a publicação do livro brasileiro no exterior.
O projeto da Fundação Biblioteca Nacional, entidade vinculada do Ministério da Cultura, envolve parceiros que participam do projeto tendo como base o edital de coedições de publicações da FBN (15/5/2012 – D.O.U.). Suas atribuições são as seguintes: o Itaú Cultural, que sugeriu o projeto à FBN, é coeditor da publicação e criador do portal da publicação; o Itamaraty é o responsável pela distribuição internacional; e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo realiza a impressão. Não há repasse de recurso entre as diferentes instituições.
Nem a FBN, nem os demais envolvidos no projeto da revista têm algum tipo de ganho financeiro em caso de contratação da obra por editora estrangeira.
FORMATOS DO TEXTO, DIREITO AUTORAL E REVISÃO:
Os textos devem ter no máximo 15 mil caracteres (sem contar os espaços) e formato Word (.doc). Junto deve vir uma declaração de liberação de direito de autor do texto original traduzido e do tradutor para a revista de circulação internacional (em formato impresso, digital e no site da publicação). Para realizar a inscrição também é necessário preencher um formulário.
Em caso de aprovação, será necessário preencher um formulário adicional de informações sobre o autor e a obra, no idioma em que o trecho foi inscrito (ou inglês ou espanhol).
Todas as traduções serão submetidas à revisão e poderão sofrer alterações de acordo com o critério dos editores. Não será exigida das traduções uma qualidade literária final. Em caso de contratação da obra por editora estrangeira, esta irá decidir o nome do tradutor definitivo, a ser escolhido sem o envolvimento da FBN ou demais participantes do projeto da revista.
ENDEREÇO PARA INSCRIÇÃO:
Os textos precisam ser dirigidos para o e-mail mamagazine@bn.br. Em caso de dúvidas, escrever para o mesmo email (mamagazine@bn.br) ou telefonar para 5521-2220-2057 ou 5521-2220-1994.
O material para a seleção deve ser apenas enviado por email (as liberações de direito autoral devem ser assinadas e escaneadas). Os selecionados serão obrigados a enviar as liberações de direito de autor e de tradução assinadas e pelo correio, para o Centro Internacional do Livro, o órgão da FBN responsável pelo projeto. O endereço será divulgado posteriormente.
DAS RESTRIÇÕES
De acordo com as linhas gerais estabelecidas pelo Edital de Coedições da FBN, que rege a Revista Machado de Assis, não poderão participar da seleção autores, tradutores, editores e agentes que sejam Membro do Conselho Editorial da publicação, dos Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, do Ministério Público ou do Tribunal de Contas da União, ou que possuam cônjuge ou companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade até o 2º grau, nestes poderes ou no Conselho Editorial da publicação.
Também está vedada a participação de servidor público vinculado à FBN ou respectivo cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade até o 2º grau.

quarta-feira, 13 de março de 2013

III Festival Nacional do Conto



O 3º Festival Nacional do Conto, único evento dedicado ao gênero na América, desembarca pela primeira vez em Florianópolis a partir do dia 19 de março. Serão cinco dias dedicados ao conto, neste projeto de difusão, discussão e fomento, que traz para Santa Catarina o debate sobre um dos gêneros literários mais populares do globo, e que no Brasil chegou ao ápice com Machado de Assis, Clarice Lispector, Dalton Trevisan, Luiz Vilela e Rubem Fonseca. Para esta terceira edição, os nomes confirmados são Luiz Vilela (MG), João Silvério Trevisan (SP), Ronaldo Bressane (SP), Luci Collin (PR), Marcelo Moutinho (RJ), Antônio Xerxenesky (SP), Leandro Sarmatz (SP), Julián Fuks (SP), Luiz Felipe Leprevost (PR) e Silveira de Souza (SC).

SELEÇÃO DE PROPOSTAS NO ÂMBITO DO PROGRAMA INSTITUCIONAL DE APOIO À PRODUÇÃO ACADÊMICA (PIAPA)

A Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propesp) e a Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (Fadesp) tornam público o Edital para a seleção de propostas no âmbito do Programa Institucional de Apoio à Produção Acadêmica (Piapa). O programa objetiva conceder passagens aéreas visando ao comparecimento de pesquisadores da UFPA a eventos científicos no País e no exterior, para a apresentação de trabalhos científicos originais. O programa é coordenado pela Propesp, por meio de sua Diretoria de Pesquisa (DPQ), com o apoio da Fadesp. Confira aqui o Edital.

O apoio do Piapa é destinado a docentes e técnico-administrativos da UFPA que pretendam apresentar trabalhos científicos originais em eventos científicos no País ou no exterior. Segundo Emmanuel Tourinho, da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, “o Piapa oferece aos pesquisadores da UFPA, sobretudo aos mais jovens, a oportunidade de diálogo com uma comunidade científica abrangente e qualificada. Essa experiência é essencial para o aprimoramento de seu trabalho de investigação e repercute, também, na formação dos nossos alunos para a pesquisa”, explica.

Divulgação - O professor Eduardo Cerqueira, da Faculdade de Engenharia da Computação, foi um dos contemplados pelo último edital. Ele ressalta a importância do programa que ajuda a divulgar o resultado de pesquisas da UFPA: “Em 2012, fui contemplado no Edital Piapa com uma viagem ao exterior, onde apresentei um artigo e fui responsável pela coordenação geral do IFIP/ACM Latin AmericaNetworking Conference 2012 (LANC 2012), que aconteceu em Medelin, na Colômbia. O LANC é um dos eventos mais importantes na área de Redes de Computadores da América Latina e, com o apoio parcial do Piapa, mostramos resultados de pesquisas realizadas na UFPA”, conta.

Inscrições – O Edital possui duas chamadas: a primeira é destinada a eventos com início entre 10 de abril e 31 de julho de 2013, e as submissões das propostas devem ser feitas até o dia 29 de março de 2013. A segunda chamada contemplará eventos com início entre 1º de agosto e 10 de dezembro de 2013 e as propostas devem ser submetidas até o dia 7 de junho de 2013.

Para as inscrições, o candidato deve apresentar o formulário de inscrição, conforme modelo apresentado no Anexo I do Edital; cópia do resumo do trabalho a ser apresentado no evento; comprovantes de submissão do trabalho para apresentação no evento; documento de divulgação do evento ou cópia da página do evento na internet; cópia do(s) trabalho(s) científico(s) publicado(s) no ano de 2012, conforme definido nos itens 3.5. e 4.3 do Edital e Curriculum Vitae disponível online, na Plataforma Lattes do CNPq (não é necessário apresentar cópia impressa).

A Propesp ressalta que não é necessário apresentar o comprovante de aceitação do trabalho por ocasião da solicitação do apoio. Caso a proposta seja aprovada, o pesquisador poderá apresentar o comprovante no momento da emissão do bilhete aéreo.

A documentação completa para a candidatura deve ser encaminhada à Propesp, por meio de processo registrado no Protocolo Geral da UFPA.

Fonte: PROPESP

Seleção de bolsistas estagiários

A Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PROPESP) torna pública a seleção de Bolsistas Estagiários, para atuação junto às Diretorias de Pesquisa, de Pós-Graduação e de Capacitação.

Para mais informações, leia o edital aqui.

sexta-feira, 8 de março de 2013

A morte do tradutor de Guimarães Rosa

Curt Meyer-Clason, que morreu em janeiro, foi um dos maiores divulgadores da literatura latino-americana na Europa. Traduziu para o alemão obras seminais como “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez


Curt Meyer-Clason, o grande divulgador da literatura brasileira, latino-americana e portuguesa na Europa no pós-Segunda Guerra Mundial, morreu em Munique, sul da Ale­ma­nha, em janeiro, aos 101 anos.

Meyer-Clason, tradutor, escritor, editor, ensaísta e crítico, deixou uma obra incomparável — cujo volume e conteúdo só aos poucos é conhecida em sua profundidade. Seu nome não constava nas manchetes de primeira página — só nos círculos editoriais, entre autores e leitores. Os estudiosos do ramo terão décadas de trabalho para pesquisar, analisar e interpretar a enorme quantidade de documentos, registros, apontamentos que Curt Meyer-Clason produziu e deixou para a posteridade. Em seu acervo encontram-se, além disso, milhares de cartas de autores que traduziu.

Sua biografia é tão diversificada como os livros que traduziu. Por uma invulgar casualidade do destino, sua vida enveredou por um caminho que jamais planejara.

Curt Meyer-Cla­son nasceu em 1910 em Ludwigsburgo, cidade próxima à Stuttgart, no sudoeste da A­le­manha. Seus ancestrais eram da nobreza; seu pai era oficial no exército prussiano. Frequentou o ginásio em Stuttgart e, em seguida, matriculou-se numa escola de co­mércio. Era a carreira que pretendera seguir. Partiu para o norte da Alemanha. Em Bremen encontrou trabalho numa firma americana que atuava no ramo de importação de algodão e tinha filial em Le Havre. O jovem empregado aprendera, segundo suas próprias palavras, a “classificar algodão”. Do­minava o inglês e o francês e por isso foi incumbido de tratar da correspondência da empresa, trabalho este que tornava necessário seu constante deslocamento entre Bremen e Le Havre.

Em 1936 a firma enviou-o ao Brasil, para trabalhar em São Paulo como “controlador de algodão”. Nesta função conheceu os mais importantes portos do Brasil, também passava longos períodos na Argentina.

Radicou-se em Porto Alegre, onde dirigiu uma empresa fabricante de móveis. Curt Meyer-Cla­son tornou-se personagem conhecida na sociedade local. Desfrutava os prazeres que seu novo ambiente oferecia. Era jovem e na época, o que era raro em sua i­da­de, já era dono de um automóvel conversível, uma prova de reconhecido status. Mais tarde, em uma de suas entrevistas, Meyer-Clason, em referência àquela época, disse: “Naqueles tempos eu era um dandy. Eu adorava três coisas: moças bonitas, gravatas e tênis”. 

Corria o ano de 1942. En­quanto na Europa a Segun­da Guerra estava em pleno andamento, no Brasil Getúlio Var­gas tratava de manejar-se entre os blocos rivais. Curt Meyer-Clason foi confrontado com os algozes do Estado Novo. Foi preso e condenado a 20 anos de prisão — sob a acusação estar en­volvido em espionagens a favor do governo nazista da Alemanha. Até hoje essas acusações nunca foram confirmadas. Curt Meyer-Clason foi parar no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, on­de ficou preso por cinco anos. Sobre Ilha Grande, disse ele, mais tarde: “O tempo pa­rou, enquanto que, em ou­tras partes do mundo, mi­lhões de ho­mens da mesma ida­­­de se matavam mutuamente”.

Seu companheiro no cárcere, outro cidadão alemão, o barão Gerhard von Klein, poliglota e extremamente culto, conseguiu despertar em Curt Meyer-Clason o interesse pela leitura. “Foi aí que eu aprendi a ler. Lía­mos tudo: Rilke, Thomas Mann, Friedell; Mon­taigne, Pascal, Pro­ust, Bernanos, Berdjiajew, Bu­­ber, os grandes russos e autores brasileiros. Tornei-me um outro homem.”

A consequência de sua amarga experiência com a repressão do Estado Novo, aliada as suas naturais aptidões, aos seus interesses, as suas paixões e a sua imensa capacidade de trabalho, trouxe-lhe, mais tar­­de, os méritos que indubitavelmente merece. O caminho por ele per­corrido foi acidentado e tortuoso. Os anos de cárcere foram a casualidade do seu destino. Liberto do presídio da Ilha Grande, Curt Meyer-Clason estabeleceu-se no Rio de Janeiro, foi trabalhar no “comércio de compensação alimentícia exportando madeira de pinho contra a importação de uísque escocês”. 

Em 1954, de­pois de 17 anos no Bra­sil, Mey­er-Clason regressa à Alemanha “como um recém-nascido”. Fixa residência em Munique e começa a trabalhar como revisor para várias editoras. Nessa época ele era um dos mais frequentes visitantes do Consulado Geral do Brasil para onde se dirigia quase que diariamente “a fim de matar a saudade que sentia dopaís”. Não demorou e Meyer-Clason foi sendo solicitado para trabalhos de tradução. Foi assim que nasceu a ideia e o seu desejo de transferir a literatura latino-americana e a forma de vida do continente à Europa. Começou a verter obras do espanhol, português, francês e inglês para o alemão.

Curt Meyer-Clason permaneceu em Munique até 1969. Nesse entretempo já havia traduzido Gabriel García Márquez, João Guimarães Rosa, Juan Carlos Onetti, César Vallejo, Augusto Roa Bastos, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e outros. Meyer-Clason tornara-se figura respeitada nos círculos editoriais e culturais da Alemanha. Paralelamente ao seu trabalho, Meyer-Clason mantinha estreito contato com quase todos os autores latino-americanos vivos da época.

Em 1969 Meyer-Clason recebeu o convite para assumir a função de diretor do Instituto Goethe, em Lisboa. Permaneceu na capital lusitana até sua aposentadoria em 1976. Portugal ainda vivia sob a influência dos anos da ditadura de Antonio de Oliveira Salazar, que deixara o governo, por questões de saúde, em 1968. Seu sucessor, Marcelo Caetano, seguindo a mes­ma linha política de repressão salazarista, até a Revolução dos Cravos, em 1974, em nada diminuíu o controle dos meios de comunicação. Meyer-Clason resolveu o problema à sua maneira. Transformou o Instituto Goethe, de Lisboa, “nu­ma porta aberta para a Eu­ropa”. A sede do instituto servia de ponto de encontro para escritores, representantes da intelectualidade portuguesa e dissidentes de todas as correntes políticas. Por outro lado, Meyer-Clason convidava autores e intelectuais alemães para encontros com autores portugueses. Os alemães Wer­ner Herzog, Peter Weiss, Walter Jens, Martin Walser, Gün­ther Grass, Heinrich Böll, Hans-Mag­nus Enzensberger e o austríaco Tho­mas Ber­nhard são apenas alguns dos proeminentes da cultura alemã que passaram por Lisboa naquela época. Com uma companhia teatral de Lisboa, Meyer-Clason organizou apresentações do dramaturgo alemão Bertholt Bre­­cht na capital lusitana. Para­lelamente Meyer-Clason ajudou au­­tores portugueses, como Miguel Torga, José Sara­mago, António Lo­bo Antunes, a encontrar editoras para lançar suas obras na Alemanha.

O Instituto Goethe, de Lisboa, foi transformado em laboratório cutural “Eu vivia a meio passo da ilegalidade”, diria mais tarde. Em sua obra “Diários Portu­gueses”, ele relata em detalhes os problemas enfrentados em Por­tugal du­rante o período repressivo. Curt Meyer-Clason tornou-se figura cultural respeitável em Portugal. Quando circulou a notícia de que deixaria a direção do Instituto Goethe, em Lisboa, foi iniciada uma campanha na mídia portuguesa, liderada por António Lobo Antunes, com o objetivo de convencê-lo a permanecer.

Entre os autores portugueses que verteu para o alemão estão Eça de Queirós, Camilo Castelo Bran­co, Miguel Torga, Fernando Na­mora, Carlos de Oliveira Al­meida Faria, Urbano Tavares Ro­drigues, Jorge de Sena, Eugenio de An­drade e Sofia de Mello Brey­ner-Andresen. Também editou coletâneas de contos, poesias, ficção e ensaio.

Em 1976 Curt Meyer-Clason mais uma vez regressa a Munique , onde se dedica inteiramente aos seus trabalhos de tradução e à redação de textos e ensaios. Como autor deixou 15 títulos, entre os quais “Equador”, um romance biográfico no qual narra sua juventude sem orientação e identidade pessoal como resultado do período histórico que passava a Alemanha no fim do século 19 e princípio do século 20.

Sua obra principal, no entanto, encontra-se em seu amplo trabalho de tradutor. É impossível mencionar neste texto todos os títulos das obras por ele traduzidas, pois a lista completa ultrapassa mais de 150 títulos. Para ilustrar seguem, além dos autores portugueses já mencionados (cuja lista não está completa), outros nomes de autores brasileiros e latino-americanos traduzidos por Curt Meyer-Clason: Adonias Filho, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Jorge Luis Borges, Ignácio de Loyola Bran­dão, José Cândido de Carvalho, Rubén Darío, Autran Dourado, Almeida Faria, Gabriel García Márquez, Ferreira Gullar, Clarice Lispector, Machado de Assis, João Cabral de Melo Neto, Gerardo Mello Mourão, Pablo Neruda, Darcy Ribeiro, João U­baldo Ri­bei­ro, Augusto Roas Bastos, João Guimarães Rosa, Fernando Sabino, José Sarney, César Vallejo, Octávio Paz , Antonio Di Bene­det­to e muitos outros.

Impressionante também é a lista de autores de outras nacionalidades que foram traduzidos por Curt Meyer-Clason. Eis alguns exemplos: Louis Baudin, Brendan Behan, Isaiah Berlin, Erich Blau, Alphonse Boudard, Geoffrey H.S. Bushnell, Alfred Chester, Antonio Di Benedetto, Jean Descola, José Gorostiza, Bernard Gorsky, Ronald Hardy, Alan Harrington, Sean Hignett, Martin Buber, Alberto Moravia, Luc Stang, Mempo Gi­ardinelli, Vladímir Nabókov, Henry Roth, Elie Wiesel.
A relação de autores aqui citados não é completa. Curt Meyer-Clason não traduziu apenas um título de cada autor, em alguns casos traduziu suas obras completas ou parte destas.

Conheci Curt Meyer-Clason em 1992, num por oportunidade de um seminário organizado pela Uni­versidade de Stuttgart. O renomado tradutor fora convidado para proferir uma série de palestras sobre literatura latino-americana. Na época Meyer-Clason estava com 82 anos, uma idade em que muita gente nem mais sai de casa. Sua aparência física chamava atenção. Alto como um soldado prussiano, de camisa e cachecol vermelho, subia ereto ao palco, não demonstrando a idade. Homem de personalidade carismática, cativava a audiência com suas primeiras frases e prendia-lhes a atenção até o término das palestras que, em regra, duravam duas horas. Vinha com seus textos preparados, mas nem sempre os usava ou usava-os só por alguns minutos. Não raras vezes punha-os de lado e continuava a falar conforme lhe vinham as ideias. Formava suas frases de forma precisa, palavras exatas, com uma lucidez de espírito que transbordava seu profundo conhecimento literário. “O homem é uma biblioteca ambulante”, disse um cidadão ao meu lado.

No fim de cada palestra, foram seis no decorrer de uma semana, Curt Meyer-Clason permanecia à disposição para eventuais perguntas. Numa palestra, já era tarde, o ponteiro do relógio ultrapassava as 23h, e ao responder uma das perguntas, Meyer-Clason fez referência a sua tradução de “Grande Sertão: Veredas” e aos seus contatos com João Guimarães Rosa. Aproveitei para formular uma pergunta: “Sr. Meyer-Clason, eu gostaria de saber se o senhor teve muitos problemas para traduzir o ‘Grande Sertão’”. O conferencista olha-me de forma inquisitória, em seguida, num relance, deixa seus olhos vagar pela sala enorme e observa: “Escuta, esta sala é demasiadamente grande para este pequeno grupo. Conheço um barzinho, pertinho, a uma quadra e meia daqui. Que lhes parece, vamos todos para lá, e aí eu respondo a sua pergunta”.

Fomos. Seis pessoas, com ele sete. Mal o garçom trouxe os drinques, Meyer-Clason, sentado a minha frente, volta à minha pergunta: “Você quer saber se eu tive pro­­­blemas com a tradução de o ‘Grande Sertão’?” E logo enveredou na resposta. Em tom professoral, Meyer-Clason, começa seu monólogo, que nos prende: “É lógico que não foi trabalho fácil. Mas graças à amizade que, há longos anos, eu já vinha mantendo com João Guimarães Rosa, foi-me possível resolver as partes mais difíceis com o auxílio do próprio autor. Durante aquele período, João e eu trocamos mais de 500 cartas. Eu punha as questões, formulava as perguntas e ele respondia. Além disso, Guimarães Rosa veio a Munique várias vezes a fim de discutirmos os termos e as passagens mais complicadas. Perma­necia, às vezes, de três a quatro semanas. Regressava ao Brasil para retornar algumas semans mais tarde. Às vezes discutíamos dias a fim de encontrar a terminologia certa ou adequada de um só vocábulo que, muitas vezes, nem se encontrava no dicionário. O que muito contribuíu neste trabalho foi o fato de João Guimarães Rosa ter sido poliglota. Falava fluentemente vários idiomas, entre os quais também o alemão que aprendera durante o período de 1938 a 1942, no qual fora cônsul-geral do Brasil, em Hamburgo. Aliás, o mesmo método de trabalho João Gui­marães Rosa manteve posteriormente com o seu tradutor italiano e americano. Tra­duzir o “Grande Sertão” é mais ou menos como traduzir o “Ulisses”, de James Joyce”, disse Meyer-Clason enquanto bebericava seu drinque. Despe­dimo-nos quando o ponteiro já se aproximava das quatro horas da manhã e o mestre-tradutor, o erudito em literatura brasileira, não demonstrava ne­nhum vestígio de cansaço.

Os temas das noites seguintes não foram menos cativantes: Introdução à Literatura Latino-Americana e Jorge Luis Borges; Bra­silidade, As Mais Importantes Correntes da Literatura Brasileira, nos exemplos de Jorge Amado, Car­los Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa; Pablo Neruda e a voz do Chile; O mundo de Gabriel García Márquez; Poder e Política na Literatura Latino-A­mericana. Todas as noites, ao fim da palestra, encontrávamo-nos no mesmo barzinho “a uma quadra e meia daqui”. Na última noite, um dos participantes do pequeno gru­po, um estudante de literatura da Universidade de Heidelberg co­menta: “Esta semana valeu para dois anos de estudos universitários. Nunca aprendi tanto em tão pou­co tempo”.

Após estes encontros continuei a manter contato durante algum tempo com o invulgar mestre. Guardo, desta época, alguma cartas que trocamos.

Curt Meyer-Clason foi integrante da Associação dos Es­critores Alemães; do pen Clube da Ale­manha; e membro-correspondente da Academia Brasileira de Letras. Em 1972 recebeu o Prê­mio de Tradutor, da Academia Ale­mã para Língua e Poesia, e em 1996 foi agraciado com a Grã-Cruz de Mérito da República Federal da Alemanha.

Graças ao trabalho deste grande divulgador as literaturas brasileira, latino-americana e portuguesa tornaram-se conhecidas na Eu­ropa. Meyer-Clason foi, como ele mes­mo dizia, “um construtor de pontes entre vários países”. No século 20, nenhum outro estudioso divulgou tanto e tão bem a literatura brasi­leira na Europa. Foi um dos ma­iores defensores do Brasil, apesar dos anos que passou nas pestilentas celas da prisão da Ilha Grande. Seus profundos conhecimentos sobre a literatura brasileira não têm comparação. Trabalhou em silêncio até os seus últimos dias e em silêncio se despediu, no mês de janeiro, para a sua última viagem. A literatura brasileira e o Bra­­sil muito lhe devem. Rendamo-lhe o profundo respeito e a homenagem perene que merece.